![]() 25 de novembro de 1998 |
![]() Nas garras do inspetor Mingot
LUIZA VILLAMÉA A imagem de crianças saudáveis e felizes, retiradas da pobreza em seu país de origem para viver com uma nova e abastada família no Exterior, é um dos principais cartões de visita dos defensores da adoção internacional. A realidade, porém, nem sempre é cor-de-rtosa. Uma faceta sórdida da adoção, envolvendo duas adolescentes brasileiras, foi revelada na quarta-feira 18 pelo jornal La Provence, de Marselha, na França. Levadas do Recife para Marselha em 1993, as garotas vinham sendo sistematicamente violentadas pelo pai adotivo, o francês Antoine Mingot, 59 anos, um renomado contador, responsável oficial pela inspeção dos cartórios de todo o Sul da França. Preso na véspera, Mingot confessou à polícia que ameaçava as filhas adotivas "de mandá-las de volta ao Brasil" caso elas denunciassem a quem quer que fosse as sevícias sexuais a que vinham sendo submetidas nos últimos anos. O drama das garotas brasileiras veio à tona no final de semana anterior, quando a mais velha delas, hoje com 14 anos, se recusou a entrar na confortável casa da família Mingot e contou a uma assistente social o que acontecia entre quatro paredes. Convocada, a polícia confirmou a veracidade das denúncias com sua irmã dois anos mais nova e, posteriormente, através de exames médicos feitos em ambas. Colocadas sob a guarda de outra família francesa, as garotas não haviam sido localizadas pelo cônsul do Brasil em Marselha, Jorge Taunay Filho, até a sexta-feira 20. "Já estou providenciando uma autorização judicial para visitá-las", afirmou o cônsul. "A Justiça francesa está exatamente protegendo as meninas de qualquer outra pessoa que venha a importuná-las, mas, pelas informações não oficiais que recebi, elas estão passando bem." Ressaltando que jamais tivera conhecimento de abusos contra crianças brasileiras adotadas por franceses, Taunay contou que começou a acompanhar o caso assim que ele apareceu na imprensa. Nesta terça-feira, ele tem uma audiência marcada na Procuradoria Geral de Justiça. "Pelas leis da França, as meninas são francesas", esclareceu. Para a legislação do Brasil, elas continuam sendo brasileiras, pois foram naturalizadas na menoridade pelos pais adotivos. "Este é um caso a ser estudado pelo Itamaraty e pela Interpol", afirmou o senador Romeu Tuma (PFL-SP), ex-diretor da Polícia Federal, que já integrou os quadros da polícia internacional. Por enquanto, apenas o Itamaraty foi acionado, justamente pelo cônsul de Marselha. No inquérito instaurado na França, Antoine Mingot foi indiciado por violação e agressão sexual contra menores. Até que o escândalo viesse a público, Mingot era considerado na região como um "cidadão irrepreensível", excelente pai de família e dono de uma bem-sucedida carreira profissional. Em toda a França, existem apenas seis inspetores de cartório no mesmo patamar profissional que o homem agora na prisão.
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