![]() 29 de julho de 1998 |
![]() O maior negócio do mundo Privatização da Telebrás atrai as maiores operadoras de telefonia e pode tirar atraso do País no setor
ANDRÉ VIEIRA, HÉLIO CONTREIRAS E MARIA FERNANDA DELMAS Os maiores operadoras de telecomunicações do planeta estarão conectadas a partir das dez horas desta quarta-feira 29 ao prédio da Bolsa de Valores, localizado na praça XV, no centro do Rio de Janeiro. Ali, no recinto do pregão da Bolsa, os executivos das empresas mais ricas do mundo vão participar do maior negócio já feito na história do Brasil: a privatização das 12 empresas do sistema Telebrás, a estatal brasileira de telecomunicações, cujo controle será transferido pelo preço mínimo de R$ 13,47 bilhões. Será o leilão de privatização mais longo, trabalhoso e, possivelmente, o mais tenso realizado no Brasil desde o início do programa de venda de estatais em 1991. Espera-se que a disputa entre os consórcios dure pelo menos cinco horas, uma guerra judicial se arraste ao longo do dia nos tribunais e os militantes contrários à venda da empresa protestem duramente em frente à Bolsa. Na semana passada, uma estratégia de silêncio foi adotada pelas empresas que vão participar do leilão da Telebrás. Mais de 70 empresas se pré-qualificaram ao leilão, embora a expectativa seja de que duas dezenas delas realmente tenham capacidade de abocanhar as 12 empresas. "Não podemos nem dizer se vamos participar ou não", afirma Larry McDonnell, gerente de relações com a imprensa da Sprint, uma das operadoras apontadas com interesse em arrebatar a Embratel. "A única posição conhecida é que vamos participar do leilão de um empresa de telefonia fixa e duas de celulares", resume-se a dizer o porta-voz da Portugal Telecom, José Maria Amado. Toda a formação dos consórcios vem sendo costurada nos bastidores e as informações são difusas. Sabe-se que o maior interesse recai sobre a Telesp fixa, cujo preço mínimo é superior ao valor arrecadado no ano passado com a venda da Vale do Rio Doce. A atenção baseia-se no fato de ser uma região com alto poder aquisitivo e menor extensão territorial onde é possível obter melhor retorno dos investimentos. Além disso, como os consórcios deverão obedecer metas fixadas em contratos de concessão para instalação de telefones nos próximos anos, quem cumpri-las poderá investir em outras regiões do País. Os analistas fazem suas apostas sobre quem leva as empresas. "A Telefónica da Espanha é uma das favoritas", diz Fábio Nazari, analista do Banco Fonte-Cindam. Nos últimos anos, a operadora espanhola vem se expandindo na América Latina, onde já tem negócios na Argentina, no Chile e até no Brasil, onde liderou um consórcio que comprou o controle da telefônica gaúcha CRT. Na bolsa de apostas, a Telefónica tem boa cotação para abocanhar a Telesp fixa ou a Tele Centro-Sul, transformando-se na operadora do Mercosul. "Temos um acordo global para dar especial atenção à América Latina", afirma o porta-voz da Telefónica, José Massó. Da Europa, outras operadoras pesos pesados devem entrar agressivamente no leilão. A italiana Stet, que obteve a licença para explorar a telefonia celular em Minas Gerais e Bahia, deve se aliar a um grupo de fundos de pensão de estatais. "Só no dia poderemos dizer quem serão nossos sócios", diz Alberto Brunelli, diretor do grupo Telecom Italia, dono da Stet. Até as operadoras japonesas, abatidas em meio à crise asiática, se inscreveram no leilão da Telebrás. Todo o segredo dos consórcios se justifica. O governo tem razão de dizer que não é apenas o controle da Telebrás que está sendo vendido, mas o mercado de telecomunicações brasileiro. Há cerca de 18 milhões de linhas fixas e outros quatro milhões de linhas celulares em todo o País. Mesmo com os R$ 25 bilhões investidos pela Telebrás nos últimos três anos e meio, a fome dos brasileiros por telefones é gigantesca. Estima-se que a demanda seja equivalente a 20 milhões de linhas. Nas contas do Ministério das Comunicações, a previsão é de que o número de linhas fixas chegue a 50 milhões, enquanto o total de telefones móveis alcance o nível de 26 milhões nos próximos dez anos. Com a privatização, a esperança é que não só o problema de falta de linhas seja resolvido, mas também que a ausência de sinal de discagem e o alto custo das ligações telefônicas sejam esquecidos na memória. Por tudo isso, há uma louca ansiedade em torno do leilão desta quarta-feira. Para se ter uma noção do esforço dos consórcios em participar do leilão da Telebrás, basta ver o exemplo da empreiteira mineira Cowan, dona de uma receita de US$ 50 milhões, uma ninharia comparada aos R$ 20 bilhões faturados pela operadora americana Bell South. A construtora, que pretende dar lances nas empresas de celular, tem desde maio uma equipe de 40 pessoas envolvidas exclusivamente no preparo da participação no leilão da Telebrás. Oito técnicos foram recrutados da própria estatal, inclusive um diretor financeiro. Para aconselhar os trabalhos, foram contratados um banco, dois escritórios de advocacia, uma corretora de um banco estrangeiro e uma consultoria internacional especializada no setor de telecomunicações. "Temos fôlego para arrebatar uma das quatro grandes empresas de celular, como a Telesp ou duas de menor porte", garante o diretor da Cowan, José Paulo Toller Motta. Os sonhos das empresas brasileiras estão focados exatamente nessas empresas. "Queremos a Telemig Celular", diz o vice-presidente da Lightel, Gunnar Vikberg, que já tem negócios de telefonia nos Estados de Minas, Rio, São Paulo e Espírito Santo. A Bolsa do Rio já preparou a casa. Quinze salas desocupadas no prédio da Bolsa foram cedidas às empresas. É ali que vão funcionar os quartéis-generais dos consórcios. Uma infra-estrutura foi montada especialmente para os executivos das empresas com um sistema acústico que evita que se ouçam as conversas dos colegas nas salas vizinhas. Os ambientes têm fax, microcomputador, impressora, duas linhas telefônicas, mesa para reuniões, sofá e um banheiro que recebeu até a instalação de um chuveiro. Do lado de fora, outra operação de guerra. Os executivos devem chegar de helicóptero no comando do I Distrito Naval, a antiga sede da Marinha, que fica próximo à Bolsa. Estão previstas manifestações da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento dos Sem-Terra (MST). Tal como no leilão da Vale do Rio Doce, a Polícia Militar já preparou a tropa de choque para cercar o prédio da Bolsa. Uma equipe de 400 advogados da União vai estar a postos para derrubar as cerca de 200 ações que deverão ingressar nos tribunais em todo o País contestando a validade da privatização. É uma verdadeira engenharia montada para que, no final, se conheçam os novos barões das telecomunicações no Brasil – um setor cujo faturamento superou nos últimos dois anos a receita alcançada pelas empresas de petróleo, até então o negócio mais lucrativo do século XX.
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