8 de maio de 1996
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O hábito faz o monge
Protetor dos deserdados, o abade Pierre derrapa na França ao defender livro que subestima o Holocausto
CLAUDIO CAMARGO
Ele era uma das figuras mais populares da França, uma das poucas unanimidades do país. Aos 83 anos, Henri-Antoine Grouès, mais conhecido como abade Pierre, já foi indicado oito vezes ao Prêmio Nobel da Paz por suas apaixonadas campanhas em defesa dos pobres e deserdados. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele destacou-se como membro da Resistência Francesa e chegou a ajudar judeus a fugir da França ocupada para a Suíça. Há uma semana, o abade Pierre tornou-se o epicentro de uma polêmica que, volta e meia, reabre antigas feridas francesas. Tudo porque ele saiu em defesa do velho amigo e filósofo Roger Garaudy, ex-dirigente comunista, que hoje se diz "marxista, cristão e muçulmano". Em seu último livro, Les mythes fondateurs de la politique israélienne, Garaudy subestima o Holocausto dizendo que Israel usou "o mito dos seis milhões de judeus exterminados" para construir seu Estado e justificar os crimes contra os palestinos. "Muita gente veio me agradecer pela coragem em questionar um tabu. É preciso parar de chamar de anti-semita quem discute a história do Holocausto. Não nos deixaremos mais chamar de anti-semitas por dizer que um judeu canta mal", gracejou o abade. Pressionado e criticado até pela hierarquia católica, Pierre admitiu que não tinha dúvidas de que "o nazismo matou milhões de judeus só por serem judeus", mas insistiu em dizer que o debate sobre a questão estava "aberto" e sustentou a "integridade intelectual" de Garaudy.
Na quinta-feira 1o., a Liga Internacional Contra o Racismo e o Anti-Semitismo (Licra), da qual o abade era membro honorário há 20 anos, o afastou de seus quadros. "Mantê-lo em nossa entidade equivaleria a dar um aval a uma mentira", afirmou o presidente da entidade, Pierre Aidenbaum. "O abade certamente tem muitas qualidades no que tange ao seu trabalho com os pobres. Mas, em matéria de análise da História, ele se revelou, na melhor das hipóteses, um marionete político e, na pior, um anti-semita", declarou a ISTOÉ o rabino Henry I. Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista.
Se a polêmica arranhou a até então impecável reputação do abade Pierre, o mesmo não se pode dizer de Roger Garaudy. Durante muitos anos, ele professava suas certezas como membro do Comitê Central do Partido Comunista Francês (PCF), numa época em que a organização ainda entoava loas a Josef Stálin. Em 1970, Garaudy ganhou aura de dissidente ao ser expulso do PCF por criticar a URSS. Como muitos dos representantes da intelligentsia francesa, o filósofo tornou-se um discípulo à procura de uma igreja: flertou com o maoísmo, o cristianismo e, finalmente, abraçou o Corão dos muçulmanos. Quando publicou Les mythes fundateurs, Garaudy teve o apoio dos "revisionistas" - um leque que vai da extrema esquerda à extrema direita, cujo denominador comum é o questionamento do Holocausto. Em sua tentativa de relativizar o horror, Garaudy afirma que genocídio é uma palavra "exagerada" para denominar o extermínio de judeus, já que outros povos também foram massacrados pelo III Reich e muitos judeus foram mortos por fome, trabalho forçado ou fuzilamentos e não apenas em câmaras de gás. Agora, o ex-intelectual marxista está sendo indiciado na lei Gayssot, que prevê pena de até um ano para quem negue ou relativize a existência de crimes contra a humanidade.
Quanto ao bom abade Pierre - que esteve no Brasil em 1990 a convite de dona Leda Collor, mãe do ex-presidente Fernando Collor - o estrago está feito. Na França, alguns acreditam que sua atitude, embora chocante, não é surpreendente. "Em 1993, sob o pretexto de que Josué massacrou os filisteus e os habitantes de Jericó, o abade acusou os judeus de genocídio e colocou em questão a existência do Estado de Israel", disse Michel Antonine Burnier ao jornal Libération. Para outros, trata-se de um clérigo que não assimilou o ecumenismo do Concílio Vaticano II. "A atitude do abade não é uma atitude católica. É uma postura pré-conciliar. Depois do Vaticano II, a Igreja Católica não subestima os sofrimentos do povo judeu", afirmou o monsenhor Arnaldo Beltrami, da Cúria Metropolitana de São Paulo.
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