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'Os padres deveriam poder casar''
Bispo dom Clemente Isnard lança livro em que defende idéias como o fim do celibato e a ordenação de mulheres

RODRIGO CARDOSO

Na abertura de Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais, dom Clemente Isnard diz que todo católico apostólico romano deveria trazer sua modesta colaboração para o bem da Igreja. Sem medo e sem hesitação. É o que faz na recémlançada obra, apesar das tentativas em contrário. O bispo emérito de Nova Friburgo (RJ) conta que sofreu pressões por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para não publicar o livro e teve o contrato com uma editora (católica) cancelado, mas decidiu seguir em frente. Representante de uma geração de bispos que comandaram a CNBB nos anos 70 e 80, dom Clemente tem sua história associada à ala progressista da Igreja, que defende a leitura do Evangelho à luz das questões sociais e foi neutralizada pelo Vaticano a partir do pontificado de João Paulo II. Sem medo e gozando da liberdade da aposentadoria, o religioso defendeu posições ousadas em entrevista à ISTOÉ.

LEO CALDAS/TITULAR
"O MAL NÃO É REFORÇAR A DOUTRINA. O MAL É DEIXAR-SE PARALISAR"
Dom Clemente Isnard

ISTOÉ - O sr. acha que o celibato de padres deveria ser obrigatório?
Dom Clemente
- O celibato sacerdotal não faz parte da essência do sacerdócio católico. Nas Igrejas Orientais, também unidas a Roma, muitos padres são casados. Os padres deveriam poder se unir em matrimônio.

ISTOÉ - Desde quando o sr. passou a defender essa idéia?
Dom Clemente
- Durante meu episcopado, dois sacerdotes pediram dispensa do celibato. Facilitei na medida do possível, mas com profundo pesar, pois eram padres muito bons. Um deles, de- Bispo dom Clemente Isnard lança livro em que defende idéias como o fim do celibato e a ordenação de mulheres pois de dispensado e casado, só não celebrava missa, mas tinha um comportamento sacerdotal. Eu deixava que ele fizesse batizados, casamentos, só não podia permitir a celebração da missa e ouvir confissões. Meu sucessor (dom Alano Maria Penna) cortou tudo isso.

ISTOÉ - No seu caso, como o sr. encarou o celibato?
Dom Clemente
- Eu sou um monge e o celibato é essencial para o monge. Nunca duvidei do meu celibato.

ISTOÉ - O que faz o sr. pensar que é ideal para a Igreja a mulher ter o direito de celebrar missas?
Dom Clemente
- Há muitas determinações canônicas na Igreja que excluem as mulheres de certas funções. Presidir Comunidades de Base celebrando a missa, por exemplo, iria representar uma solução para a falta de clero.

ISTOÉ - Como o sr. avalia o atual episcopado brasileiro?
Dom Clemente
- A necessária multiplicação de bispos trouxe uma certa decadência, agravada pelos critérios conservadores da Cúria Romana, que faz as nomeações. Para o Vaticano é mais cômodo dirigir um episcopado dócil, que siga todas as orientações

ISTOÉ - Bento XVI busca reforçar a doutrina, não admite mudanças, ainda que isso signifique perder fiéis. Qual o impacto dessa postura?
Dom Clemente
- O mal não é "reforçar a doutrina". O mal é deixar- se paralisar.

ISTOÉ - O sr. recebeu pressões para não publicar o livro. Como aconteceu?
Dom Clemente
- Recebi uma carta dos bispos da regional Leste I (da CNBB), assinada por todos, pedindo que eu não publicasse o livro. Fui informado de que o núncio apostólico proibiu ao Provincial dos Paulinos de publicar o livro através da editora Paulus. Eles então desfizeram o contrato que haviam feito anteriormente.

ISTOÉ - Por que só agora, emérito e aos 91 anos, o sr. resolveu reunir todas essas opiniões polêmicas?
Dom Clemente
- Porque só agora evoluí o necessário para propor essas opiniões polêmicas. Dom Hélder Câmara, por exemplo, escreveu que se converteu aos 56 anos.


3/7/2008


 
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