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Internacional  
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A epopeia de Ingrid Betancourt
Sorridente e bem-disposta, a ex-senadora colombiana ressurge de seis anos de cativeiro com a estatura de uma heroína

CLÁUDIO CAMARGO

No dia seguinte, apenas 36 horas depois de ter sido libertada, Ingrid embarcou para a França com os filhos, a mãe e o ex-marido Fabrice Delloye, a fim de se encontrar com o presidente Nicolas Sarkozy e agradecer aos esforços do governo francês pela sua libertação. Desde o ano passado, os europeus, mais principalmente os franceses, tinham adotado a causa da libertação da ex-senadora franco- colombiana como bandeira de luta. Na sexta-feira 4, uma rádio suíça divulgou a informação de que as Farc teriam recebido US$ 20 milhões do governo francês, dinheiro que teria sido usado na operação do Exército colombiano para subornar guerrilheiros. O governo francês negou a informação.

"Eu me sinto como alguém que voltou de uma viagem à pré-história. No cativeiro, sabão e pasta de dentes eram luxo"
Ingrid Betancourt

Filha de Gabriel Betancourt, ministro da Educação e embaixador da Colômbia junto à Unesco em Paris, e de Yolanda Pulecio, que foi miss Cundinamarca de 1955 e depois seria eleita senadora, Ingrid nasceu no Natal de 1961, em Bogotá, mas viveu boa parte da infância e da adolescência na capital francesa. No ambiente familiar respirava política e cultura: Ingrid estudou ciências políticas em Paris. Lá, ela teve um envolvimento amoroso com um professor, Dominique de Villepin, que viria a ser ministro do Exterior da França sob o governo Jacques Chirac e se tornaria peça-chave de uma frustrada tentativa do governo francês de resgatá-la, em 2003. Em Paris, Ingrid conviveu com celebridades como o poeta chileno Pablo Neruda e os conterrâneos Gabriel García Márquez e Fernando Botero. Em 1983, casou-se com Fabrice Delloye e ganhou a cidadania francesa.

ARTE BRUM/RICA

RICARDO MAZALAN/AP
REENCONTRO Com os filhos Melaine e Lorenzo: "Estes filhos são a minha luz, minha lua, minhas estrelas. Por eles, continuei com vontade de sair da selva, para voltar a vê-los"

Em 1989, separada do marido, decidiu voltar à Colômbia depois do assassinato do candidato do Partido Liberal à Presidência, Luis Carlos Galán. "Ela mergulhou na política, na forma de uma esquerdista dândi, disposta a bater no peito, num gesto de mea-culpa, desde que o peito não fosse o dela", disse na semana passada o etnólogo André-Marcel d'Ans, na revista La Quinzaine Littéraire. Em 1994, Ingrid saiu candidata à Câmara dos Deputados pelo Partido Liberal com um slogan: "A corrupção é a Aids de nossa sociedade." Na campanha distribuía camisinhas. Tornou-se a deputada mais votada do país. Fez greve de fome para protestar contra um escândalo de financiamento ilegal de campanhas políticas. Quatro anos depois, rompida com o Partido Liberal, Igrid fundou o Partido Oxigênio - "ar puro na política" era seu mote. Desta vez, ela distribuiu o medicamento Viagra aos eleitores para "levantar a luta contra a corrupção". Eleita senadora, Ingrid renunciou espetacularmente em 2001, argumentando que o Senado era um "ninho de ratos". Então, candidatou-se à Presidência.

O futuro de Ingrid Betancourt, como o da Colômbia, está irremediavelmente ligado a essa experiência vivida com as Farc. A dura ação do governo contra a guerrilha jogou-a no fundo do poço - este ano, as Farc perderam três membros da direção, entre eles o líder Manuel Marulanda, e sofreram fortes baixas e deserções. Com a libertação de Ingrid, o presidente Álvaro Uribe pavimenta o caminho para calar seus críticos e se cacifa para obter um terceiro mandato. Depois do resgate, sua popularidade atingiu 91% e o governo conseguiu neutralizar o conflito do Executivo com o Judiciário em torno das irregularidades na lei que permitiu sua reeleição. Hoje, na Colômbia, só uma pessoa pode fazer frente a Uribe: Ingrid Betancourt, agora alçada à condição de mito, quase um Nelson Mandela de saias Se ela vai aceitar o desafio é outra história.

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3/7/2008


 
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