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A tourada de Madri
A Espanha volta a se abrir aos turistas brasileiros, mas fecha o cerco a quem vive lá como imigrante ilegal

LUÍZA VILLAMÉA - Madri

Sentada nos jardins do imponente Palácio Real, em Madri, a brasileira Michelle Rosa, 31 anos, não se abala com a passagem de um carro da polícia. "Sou branquinha", diz. "Nunca me pedem documentos." A tranqüilidade de Michelle é um sentimento raro entre seus conterrâneos radicados na Espanha. Há três meses, durante a campanha que culminou na reeleição do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, até brasileiros a caminho de congressos internacionais foram barrados no Aeroporto Internacional de Barajas, em Madri. Em tempos de crise econômica e de rejeição generalizada aos imigrantes, fazia parte do jogo político recrudescer a fiscalização nas fronteiras. Passada a fase crítica, o governo espanhol voltou a abrir as portas para os brasileiros. Na semana passada, no aeroporto de Madri, as filas da imigração andavam céleres e sem tumultos. Quem chegava, passava.

FOTOS: LUANA FISCHER/AG. ISTOÉ
ALVO Michelle está entre os 60 mil brasileiros que vivem de forma irregular na Espanha

Com a economia em crise, a Espanha avisa que os turistas são bem-vindos e não pretende retomar o mau humor dos guardas como às vésperas da eleição. O problema agora é com gente como Michelle, que vive lá ilegalmente. O foco da Brigada Espanhola é com quem quer ficar e não mais com quem quer chegar ao país. No contingente de imigrantes, liderado pelo Marrocos, o Brasil ocupa o 8o lugar, com cerca de 90 mil pessoas, 30 mil deles legalizadas.

Uma lei recém-aprovada no Parlamento Europeu, chamada Diretiva de Retorno, prevê que os ilegais podem ser detidos por até 18 meses, sem julgamento, até serem deportados. A diretiva entra em vigor em 2010, mas seus efeitos já estão sendo sentidos na Europa. À frente de uma organização voltada para brasileiros - a Associación Hispano Brasileña de Apoyo a los Inmigrantes -, a psicóloga Fabiana Maria Gama Pereira conta que a demanda por informações triplicou nos últimos dias. "As pessoas sem documentos têm medo de circular pela cidade, sobretudo de metrô, por conta da fiscalização", diz. "Além disso, ficaram sem perspectiva. A construção civil parou e está cada vez mais difícil juntar dinheiro."

Com a mudança no cenário econômico, a Lei de Estrangeiros da Espanha também vem passando por alterações e o período de detenção de estrangeiros ilegais já aumentou de 40 para 60 dias. Para os legais, o ministro do Trabalho e Imigração, Celestino Gorbacho, está acenando com incentivos financeiros para que retornem a seu países. Quem aceitar a proposta abre mão do visto de residência e fica impedido de voltar à Espanha por pelo menos três anos. Depois desse período, acredita Gorbacho, o país "entrará em uma fase de expansão e de criação de empregos".

Ex-prefeito de L'Hospitalet de Llobregat, nas imediações de Barcelona, Gorbacho começou a ganhar notoriedade pelos embates que manteve com imigrantes moradores da cidade, cerca de 22% da população. Durante a campanha de Zapatero, do Partido Socialista Operário Espanhol, ele foi convocado para endurecer o discurso "de esquerda" em relação à imigração, fazendo contraponto a Mariano Rajoy, líder dos conservadores do Partido Popular. Cumpriu a tarefa com louvor, ganhou o ministério e não parou de afiar o discurso. "Quando um país chega a um amplo contingente de imigrantes, o Estado de bem-estar se debilita", defende Gorbacho.

LEGAIS Souza e Nina (acima) vivem em Las Palmas e Fabiana (à esq.) preside ONG de apoio a imigrantes

Pela contabilidade do ministro, com uma quantia de 10 mil euros (o equivalente a R$ 25 mil), muitos imigrantes teriam condições de recomeçar a vida em seu país de origem. A quantia não parece nem um pouco tentadora para o casal Márcio Luiz Ferreira de Souza e Juparaneza Anita Santana, a Nina, ambos com 45 anos. Durante viagem a Madri, para que Nina renovasse o passaporte no consulado do Brasil, eles disseram que dificilmente trocariam a vida que levam em Las Palmas, nas Ilhas Canárias, pelo Brasil. Souza, que era caminhoneiro em Belo Horizonte e trabalha atualmente na construção civil, conta que, em Las Palmas, eles moram em um apartamento bem localizado, de três quartos. "Em Belo Horizonte, por mais que eu trabalhasse, isso seria impossível", compara.

Ao contrário de Michelle, ambos têm situação legalizada na Espanha. A condição menos confortável não desanima a brasileira, que trabalha como garçonete e pretende se regularizar em breve, por meio do casamento com o namorado espanhol. No futuro imediato, planeja voltar a estudar, já que abandonou no último ano a faculdade de música no Recife. "Não nasci para ser garçonete", diz. "Também não faço o tipo que junta dinheiro para voltar ao Brasil, abrir uma padaria e ser feliz." É nessa arena, com imigrantes determinados a fincar raízes na Espanha, que o governo Zapatero toureia a própria meta de diminuir o número de estrangeiros no país.


3/7/2008


 
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