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Cultura  
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LIVROS
Libertinos de ontem e de hoje
Três livros contam, na linguagem atual, clássicos eróticos da literatura da Roma Antiga e do século XVIII

ELIANE LOBATO

ERICH LESSING/ART RESOURCE
ARTE E LITERATURA A tela O beijo roubado, de Jean Honoré Fragonard, inspirou-se na escrita de Sade e Casanova

THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE
Giacomo Casanova (1725-1798)
Foi aventureiro, escritor de ficção científica, espião italiano e criador da loteria de Paris. Em suas memórias, o veneziano enumerou mais de mil amantes
THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE
Marquês de Sade (1740-1814)
Nobre francês, foi condenado à prisão perpétua por ter se tornado amante de sua cunhada. Na cadeia, escreveu livros tidos como imorais. Morreu no hospício
Petrônio (14 a.C.-66 d.C.)
Era da elite romana. Foi diplomata e governador da Bitínia, atual Turquia. Fez parte da corte do imperador Nero e se matou cortando os pulsos, depois de uma conspiração

Quem anda por livrarias já deve ter reparado que não existem muitos títulos relacionados à literatura erótica - aquela que se diferencia da pornografia por conseguir incendiar a imaginação sobretudo pelas situações apenas sugeridas. Para o escritor paulista Flávio Braga, que está lançando três livros nessa vertente - Sade em Sodoma, Eu, Casanova, confesso e Enquanto Petrônio morre (Coleção Placere, Best Seller, R$ 21,90 cada um), esse vazio editorial aumenta à medida que outras mídias assumem a função de excitar corpos e mentes - entre elas destaca-se a internet. Claro que ainda há o brilhantismo de um Philip Roth em cena e sempre se poderá ler ou reler Henry Miller (1891-1980) e Charles Bukowski (1920-1994). Agora, no entanto, por intermédio dessa coleção pode-se também entrar em contato (numa eficiente releitura contemporânea) com clássicos como Os 120 dias de Sodoma (Marquês de Sade), Satíricon (Petrônio) e Memórias de Casanova. O escritor Flávio Braga teve o bom gosto de não adaptar as libertinas histórias para os dias de hoje, oferecendo assim belos registros de uma época amoral, repleta de luxúria e carente de heróis. "O Sade é o autor que foi mais longe. Ele fez o impensável, levou todo o horror humano para a cena", diz Braga. Apesar de ter vivido num tempo em que ainda não se criara a psicanálise (entre 1740 e 1814), o fato é que Sade vislumbrou, em sua fictícia orgia, taras e loucuras sexuais que seriam descobertas e analisadas muito mais tarde.

Além de não sacrificar a imaginação dos autores originais, a nova coleção tem inúmeros outros trunfos. O mais óbvio deles é o poder da síntese. Os livros de Braga, ao contrário daqueles que os inspiraram, têm menos de 200 páginas. Para se ter uma idéia, as memórias de Casanova somam mais de mil e o romance de Sade beira as 400 páginas. As interferências do autor paulista incluem personagens fictícios, criados por ele, como Mathieu, de Sade em Sodoma. É ele quem narra a orgia que durou quatro meses e que contou com nobres, militares e altos representantes do clero. No caso de Satíricon, que acompanha a viagem do perverso Encólpio e dois amigos por bordéis e estações de água do sul da Itália, Braga inverte a ordem dos fatos e dá uma nova vida aos protagonistas após o ato que encerra o livro de Petrônio, que é seu próprio suicídio. Na autobiografia do sedutor Casanova, ele diz ter recontado a história a partir das frestas que o biografado deixou. "Como ele pôde viajar por toda a Europa sem dinheiro? Inventei a hipótese de que ele teria salvado um nobre da morte e que, como pagamento, teria sido bancado por ele - com quem acabou tendo um caso - durante vários anos."


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3/7/2008


 
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