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Eles não querem R$ 13,8 milhões
A história de dois brasileiros que sobreviviam serrando madeira e não aceitam dividir um prêmio de R$ 27,7 milhões da Mega-Sena

RODRIGO CARDOSO

Diversão para ele é assistir à televisão e ir vez ou outra até a cidade para namorar. O jovem - que segundo seu advogado Francisco Assis de Lima foi absolvido de dois processos de tentativa de estupro - está proibido de freqüentar bailes sertanejos, festas e acampamentos para evitar confusões. "Não peguei o dinheiro e perdi minha liberdade", reclama ele. Antes da Mega- Sena, Flávio foi condenado a pagar uma multa de R$ 700 por dirigir embriagado e é acusado de participar de um grupo que passou notas falsas em uma festa. Apesar de discordar da decisão sobre a divisão do prêmio, ele diz se sentir como um piloto que venceu uma prova, mas não o campeonato. "Não somos contra a divisão do prêmio, mas queremos que seja definido quem é o dono do bilhete", reforça seu advogado.

Pedro Furlan, defensor de Altamir, ressalta que a legislação referente às loterias afirma que o vencedor é quem faz o jogo e porta o bilhete - e Flávio não se enquadra nesta situação. Enquanto busca fazer valer esse direito, Altamir segue, como o ex-funcionário, trabalhando com madeira. Este ano, plantou 100 mil eucaliptos em uma propriedade de sua família e espera ter um milhão de pés até o final do ano - claro, contando com o prêmio.

"Cada pé custa R$ 2 e, após cinco anos, dá para vendê-lo por R$ 30", diz ele, que só com essa operação pode faturar R$ 28 milhões. A iniciativa só foi possível porque, antes de a Justiça determinar o bloqueio do prêmio, Altamir sacou R$ 2.285.000,00. "Essa é uma prova de que, se tivéssemos agido de má-fé, sacaríamos tudo e não só parte do dinheiro. Retiramos só uma parte porque não contávamos com essa armação absurda", pontua o empresário Hélio da Igreja, irmão de Altamir.

Com uma parte do dinheiro em mãos - a maior fatia foi aplicada -, Altamir comprou uma caminhonete Hillux, um Fiat Stillo para a sua segunda mulher e terminou a construção de um prédio com seis apartamentos, em Toledo (PR), que ele comprou do irmão e onde mora e recebe aluguéis. Apesar do status de patrão de Flávio na época, Altamir, que no currículo traz apenas o ensino médio completo, não tinha uma vida tranqüila. Freqüentemente, como conta Hélio, recebia ajuda financeira da família, morava em uma casa do pai e transportava as madeiras que serrava em uma caminhonete dos anos 70 que pertencia a um cunhado. "No Brasil, no entanto, o patrão é sempre o bandido e o empregado, o mocinho", diz o advogado Furlan.

Um ano e meio atrás, em uma pequena agricultura que cultivava, Altamir teve um olho furado por um galho. Sem dinheiro para ir ao médico e envergonhado de ter de recorrer novamente ao irmão, passou dois dias em casa chorando e só pediu ajuda quando não suportava mais a dor. Chico Louco, como é conhecido em Joaçaba, já passou dez dias preso por conta de uma briga e é pai duas vezes - a primogênita nasceu com deficiência mental por conta da toxoplasmose contraída por sua ex-mulher.

Dos hábitos pregressos ao sorteio da Mega-Sena, Altamir abandonou as partidas de truco e caixeta. Mas não o jogo. Com um histórico de apostas em loterias desde os 14 anos, premiação em festas do interior quando criança e vitórias em sorteios do jogo do bicho, uma vez por mês ele joga em cassino, principalmente na Argentina. "Ele já ganhou duas vezes, cerca de R$ 5 mil, depois da Mega-Sena", conta seu irmão. "Mesmo assim, recentemente, saímos para jantar em cinco pessoas e ele reclamou da conta, que deu R$ 170." Altamir explica: "Eu sigo jogando porque quem ganha uma vez vai ganhar de novo."

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26/6/2008


 
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