Alô, alô, empresários. Dois filhos do presidente Lula, o psicólogo Marcos Cláudio e o publicitário Sandro Luís Lula da Silva, constituíram no fim do ano passado a firma Flexbr Tecnologia. A sede, ainda em obras, fica em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, num imóvel do onipresente advogado Roberto Teixeira. Diz o contrato social, revelado pela Folha de S. Paulo, que a empresa irá desenvolver portais para a internet, programas sob encomenda e também prestará consultoria na área de tecnologia.
Filhos de presidentes podem e devem trabalhar. Mas o ingresso de ambos no mundo high-tech marca uma guinada em suas carreiras. Há poucos meses, Marcos Cláudio dizia que seria candidato a vereador, na caminhada política para um dia chegar à Prefeitura de São Bernardo - a Presidência da República, ele próprio admitia, era sonhar alto demais. Sandro Luís, que prestou serviços a distância para um diretório do PT, fez um desabafo sobre sua rotina profissional numa página do Orkut. Sob o pseudônimo spiderman, homem-aranha, disse que continuava "vagabundeando" e "fingindo que trabalha um pouco".
Dois filhos de Lula criaram uma consultoria num imóvel de Roberto Teixeira. O que será que pretendem vender? |
Os dois, naturalmente, devem ter mudado de atitude, inspirados no exemplo do irmão Fábio Luís Lula da Silva, que é o mais bem-sucedido dos netos de dona Lindu. Sua empresa de jogos eletrônicos, a Gamecorp, já recebeu mais de R$ 12 milhões da Oi, a operadora que espera obter do governo uma lei sob medida para reinar na telefonia. Há poucos dias, Fábio esteve em Lisboa, onde foi recebido por Henrique Granadeiro, ex-presidente da Portugal Telecom, que pretende ajudá-lo a internacionalizar sua empresa. Ao ser abordado por uma jornalista, Granadeiro não se preocupou em esconder suas reais intenções. "Quem não quer uma aproximação com o filho do presidente do Brasil?", indagou.
Negócios com filhos de poderosos, no entanto, nem sempre terminam bem. Em 2002, Kim Hong-Gul, filho do ex-presidente sul-coreano Kim Dae Jong, um herói da esquerda asiática, foi preso quando se descobriu que ele recebeu US$ 2,9 milhões de uma empresa que pretendia explorar loterias no país. Na Inglaterra, Mark Thatcher, filho da primeira-ministra Margareth Thatcher, a heroína dos liberais, cumpriu prisão domiciliar em decorrência das transações que fez com países árabes e africanos. No início deste ano foi a vez de Omri Sharon, filho do herói de guerra israelense Ariel Sharon, também conhecer as grades. O Brasil, todos sabem, é diferente.
Segundo a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, aqui se insiste sempre na "escandalização do nada". É uma tese. Uma outra teoria é a de que o País mergulhou de vez no teatro do absurdo, substituindo a lógica pela hipocrisia.