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Brincando de ser mãe
Conhecidas como reborn, bonecas iguais a bebês conquistam adultas

RENATA CABRAL

KARIME XAVIER/AG. ISTOÉ
PASSEIO Sueli e a filha Jéssica, cada qual com uma reborn adotada

Nos braços das mães, é preciso olhar pela segunda vez para distinguir as bonecas reborn (em português, renascidas), cópias de bebês de verdade. A confusão é intencional: as artistas plásticas que aplicam a técnica, criada nos anos 80 nos Estados Unidos, usam moldes e tintas especiais para criar réplicas cada vez mais parecidas com recém-nascidos. Hoje, já existem até dispositivos que reproduzem o movimento respiratório e os batimentos cardíacos. Quanto mais delicadas elas ficam, mais atraem a atenção de mulheres adultas que pagam até R$ 2,5 mil para ter um bebê em casa que não dá trabalho, nem sustos. Algumas compram por prazer, outras como recurso terapêutico. No último caso, são mães que perderam os filhos e encomendam bonecos parecidos com a criança que tiveram.

Da concepção à chegada do bebê em casa, a futura mamãe tem de esperar no mínimo 30 dias. Isso porque o kit com o molde – que inclui membros de vinil e silicone, fios de lã finíssimos para os cabelos, além de detalhes como olhos e unhas – ainda não existe no Brasil. As artesãs fazem um trabalho minucioso de pintura e costuram um corpo de pano que reproduz o peso e o movimento dos bebês. A corretora de imóveis Janaína Gesteira, carioca de 30 anos, aguarda ansiosa a chegada de Camila, o segundo membro reborn da família. A primeira, batizada de Maria Eduarda, foi comprada com o pretexto de presentear a filha, Raphaela, de nove anos, mas ficou mesmo com Janaína, que fez um enxoval personalizado para a caçula. “Aqui perto de casa, todos conhecem a Duda. Muitos já a confundiram com um bebezinho”, diverte-se. Para a microempresária paulista Sueli Carvalho, que adquiriu a sua a prazo, o período de “gestação” está sendo um pouco mais longo. Mãe de um casal, ela já tem duas bonecas reborn e a terceira chega em setembro. “Elas não dão trabalho, só felicidade”, derrete-se.

NELSON VEIGA/AG. ISTOÉ
ENXOVAL Janaína dá mamadeira

Uma das pioneiras da técnica no Brasil, a paulista Monickie Ürbanjos, de 23 anos, começou a fazer as bonecas como hobby e hoje já conta com ateliê próprio, site e certificados internacionais. Ela produz cerca de 15 bonecas por mês, sozinha. A maior procura vem do berçário virtual, onde é possível “adotar” um pequenino a partir de R$ 1 mil. Mas ela diz que atende a todo tipo de pedidos: de bonecas para vitrines e produções para a TV a réplicas para imortalizar a fase de bebê de um ente querido. Mas quando percebe que a intenção da mãe é substituir um filho que já morreu, por exemplo, Monickie foge da encomenda. Para especialistas como o psicanalista Edson Saggese, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há maneiras mais produtivas de canalizar a dor por uma ausência ou alguma carência afetiva, como cuidar de crianças necessitadas. “As pessoas hoje tendem a buscar num espaço muito privado essa satisfação, que pode ser guardada ou descartada como uma boneca. Os relacionamentos exigem compromisso maior”, diz.


26/6/2008


 
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