A mão pesada do exército Violência contra civis em favela do Rio e morte de cadete na Aman revoltam a população e reacendem debates sobre o papel dos militares
Por ALAN RODRIGUES, FRANCISCO ALVES FILHO E RENATO GARCIA
Junto com outros 150 alunos, ele enfrentava o chamado "Meg", a mais temida bateria de treinos da Aman. "Lá é o inferno", disse um cadete, que pede para não ser identificado. Os jovens ficam 60 horas sem dormir, executando imensas caminhadas e alimentando-se mal, entre simulações de combate em pântanos, emboscadas, marchas, rastejamentos e trabalhos de comunicações. "No segundo exercício, da manhã do primeiro dia, depois de andarmos por 24 quilômetros, ele não agüentou." Casos como esse não são raros. Foram seis mortes no último ano. O cadete Expedito Eduardo Sobral Cavalcante, 21 anos, faleceu em 2005 após perder a mão quando uma granada explodiu durante uma das instruções da academia. Desolada, a mãe, Maria Lúcia, não viu os militares responsáveis na cadeia. "Ninguém fala sequer em indenização, como o presidente prometeu aos jovens que morreram no Rio", diz.Episódios como os da Aman e do Morro da Providência mancham a imagem do Exército. O procurador militar João Arruda, autor do livro O uso político das Forças Armadas, acredita que na Providência houve uso político-partidário de uma tropa federal. Sobre as arbitrariedades cometidas na favela, Arruda lembra o Império, quando o Estado colocou o Exército para perseguir os escravos. "Hoje a tropa é empregada para construir estradas, levar água para o Nordeste, distribuir cestas básicas e perseguir bandidos", relaciona. O vice-presidente José Alencar discorda que a ação no morro carioca tenha caráter político: "O Brasil inteiro está indignado", diz. Para o presidente do Clube Militar, general Gilberto Figueiredo, o episódio da Providência era facilmente previsível. "O Exército pode fazer uma ação tópica e logo depois voltar ao quartel, não ficar indefinidamente", diz ele. Por isso, argumenta, o comandante militar do Leste, general Luiz Cesário da Silveira Filho, e o comandante do Exército foram contrários à operação. Resta saber por que, contra os especialistas das Forças Armadas e ao arrepio dos dispositivos constitucionais, o governo decidiu manter a tropa no morro. PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4