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A mão pesada do exército
Violência contra civis em favela do Rio e morte de cadete na Aman revoltam a população e reacendem debates sobre o papel dos militares

Por ALAN RODRIGUES, FRANCISCO ALVES FILHO E RENATO GARCIA

OVELHAS NEGRAS
General-de-brigada Gerson Menandro, comandante da Aman

ISTOÉ - O tenente Ghidetti era um bom aluno?
Menandro - Esse garoto se formou em 2006. Eu não estava no comando.

ISTOÉ - O fato que ocorreu no Rio tem conseqüências para a formação na Aman?
Menandro - Foi um fato completamente isolado. Formamos 450 cadetes por ano e não há registro de desvio moral.

ISTOÉ - Qual o sentimento do sr. ao ver o Exército nessa situação?
Menandro - A instituição não pode ser maculada. Se houve erro, foi individual. Infelizmente, tem ovelhas negras em qualquer rebanho.

ISTOÉ - O cadete Maurício, que morreu aqui na Aman, foi submetido a treinamento sem comida e água?
Menandro
- Houve alimentação quente todos os dias. Teve água no equipamento dele. Não houve privação de alimento sólido ou líquido.

ISTOÉ - No que consistia esse treinamento?
Menandro - Desenvolvimento de liderança. Não é dos exercícios mais exigentes.

O tenente Ghidetti, o sargento Leandro Maia Bueno e os soldados José Ricardo Araújo e Fabiano Eloi dos Santos, agentes da tragédia, tiveram suas prisões preventivas decretadas. Outros sete soldados estão presos. Testemunhas dizem que era costume do tenente e outros militares gritar para quem consideravam suspeitos: "Vou levar vocês para os traficantes da Mineira!" Localizada a pouco mais de três quilômetros de distância, o Morro da Mineira é controlado por bandidos da facção conhecida como Amigos dos Amigos (ADA), inimiga do Comando Vermelho (CV), que domina a Providência há muitos anos. A rivalidade é extrema, a ponto de moradores de uma região não poderem freqüentar locais controlados pela outra. A sentença para tal "deslize" é a morte. Essa lei inaceitável, mas real, obrigou as famílias dos mortos a sepultá-los no Cemitério São João Batista, em Botafogo. No Caju e no Catumbi, os mais próximos da Providência, a ADA não permite sepultamentos de moradores de áreas do CV. O oficial, porém, em seu depoimento, disse desconhecer essa truculenta realidade que até as crianças sabem existir. Alegou imaginar que os rapazes levariam "apenas" uma surra. O tenente, o sargento Leandro Maia Bueno, 24 anos e os outros nove soldados envolvidos foram indiciados por homicídio triplamente qualificado.Ghidetti, 25 anos, tem o perfil de um bom moço. Não fuma, só bebe ocasionalmente, adora natação e artes marciais. Em sua página no site de relacionamentos Orkut, se autodefinia como "atlético e atrativo", leal à família e ao Exército. "Amo a verdade, a dignidade e o amor ao trabalho", escreveu.

DANIEL RAMALHO/CPDOSC 1B
NÓS E ELES Soldados da Polícia do Exército protegem o edifício do Comando Militar do Leste, no Rio . Cartaz evoca a época dos "anos de chumbo"

Disse detestar duas coisas: "O uso de drogas e as piranhas que se fazem de santinhas." Ghidetti foi um dos 434 oficiais formados pela Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no ano passado. Infelizmente, ele parece ter levado a sério demais o rigor com que a academia forma seus militares. A frase "Só stress. Não há limites para a maldade", impressa em camisas que são vendidas dentro da Aman, é a estampa pronta e sem retoques do que acontece por detrás dos muros da maior instituição militar do Brasil.No últimos dias, a Aman - fundada há 58 anos e localizada em Resende, no Estado do Rio - ocupou o noticiário pela trágica história de sofrimento protagonizada por um de seus cadetes. Maurício Silva Dias saiu de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em busca do sonho de ser um oficial do Exército brasileiro. "Mãe, vou ser general", dizia. Mas Maurício teve seu sonho interrompido ao tombar morto, às 21h57, na sexta-feira 13, por exaustão física.O atestado de óbito registra causa indeterminada. "Ele morreu depois de 15 horas de exercícios físicos", disse a tenente Adriana, assessora de imprensa da instituição. Para a mãe, Cleuza Silva, isso e nada é a mesma coisa. "Entreguei meu filho são, sadio e recebo seu corpo entre quatro tábuas. Não pode ser assim." Outros dois cadetes, Daniel Fernandes de Magalhães e Isaías Moisés Nascimento, tiveram de ser hospitalizados em conseqüencia dos exercícios. Aos 19 anos, Maurício recebia salário de R$ 612.

NA AMAN O cadete Maurício Silva Dias veio do Sul e queria ser general. Morreu depois de exercícios


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25/6/2008


 
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