A Lei Complementar 117 prevê que a decisão da utilização do Exército nesses casos é do presidente, com a concordância do Congresso. Isso só pode acontecer depois que ele ou o governador considerarem "esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública". Além disso, o texto recomenda que as ações se desenvolvam "de forma episódica", "por tempo limitado". Nenhuma dessas exigências foi observada. Mesmo contrário à utilização da tropa na favela carioca, o comandante do Exército, general Enzo Peri, tentou amenizar a situação e em várias entrevistas disse que a ação na Providência não é uma GLO - o que dispensaria, portanto, a observação do que determina a Leia Complementar 117. Mas o documento Procedimentos Operacionais Padrão e Regras de Engajamento à Operação Cimento Social, do próprio Exército, diz o contrário. Na quarta-feira 18, a juíza Regina Coeli de Medeiros de Carvalho Peixoto, da 18ª Vara Federal, determinou a retirada imediata das tropas. O governo federal prometeu recorrer da decisão.

Para os parentes e amigos dos três rapazes assassinados, entretanto, nada pode reverter o quadro. "Não pude abraçar o corpo do meu filho, estava todo cortado, envolto em ataduras", desabafa Lílian Gonzaga da Costa, 57 anos, mãe de Wellington. Ela foi a última pessoa do morro a ver os três jovens antes de serem entregues aos traficantes da Mineira. "Fui ao quartel e vi Wellington e os amigos deitados no pátio. Perguntei para onde seriam levados e me responderam que iriam para a delegacia", lembra ela. Chorando descontroladamente, Lílian recorda que viu o filho sair do quartel, no Largo de Santo Cristo, dentro de um caminhão, com os outros. "Ele sorriu para mim. É a última imagem que tenho dele", disse. Segundo a mãe, o corpo do filho estava totalmente dilacerado. "Até os órgãos genitais foram arrancados", afirmou. Wellington era um garoto como tantos outros que nascem na miséria. Largou os estudos no terceiro ano do ensino básico e ia começar a trabalhar nas obras do projeto Cimento Social. Foi preso, aos 19 anos, com um celular roubado. Segundo Lílian, foi libertado ao provar que não fora o autor do roubo. "Ele apenas achou o aparelho na rua", disse.
David também já tinha sido preso por porte de arma. Apesar da informação da polícia, Deise Guimarães, sua mãe adotiva, negou que o filho tivesse antecedentes criminais. A última vez que o viu foi pouco antes de ser rendido pelos militares. "Ele chegou do baile com o irmão. Tirou o tênis, calçou uma sandália e saiu. O irmão só não foi levado porque decidiu ficar em casa", lembra. O jovem ajudava a avó a fazer doces e salgados e estudava à noite, na mesma escola onde estudava a terceira vítima, Marcos Paulo. Em comum, esses garotos tinham a paixão pelo funk. Marcos não perdia um baile no Morro da Mangueira, zona norte da cidade. A última vez que Maria de Fátima Barbosa viu o filho adotivo foi na noite da sexta-feira 13, quando ele saiu com um grupo de amigos para ir a esse baile. "Nunca imaginei que o Exército faria isso", lamentou. "Pegaram meu filho só porque ele estava olhando os militares agredindo os outros dois rapazes", diz a mãe. Seja o que for, nada, nunca, poderá justificar a execução dos rapazes pelo poder paralelo com a colaboração do poder oficial.
A parceria criminosa entre integrantes do Exército e traficantes da Mineira é apenas um capítulo na seqüência de arbitrariedades relatadas pelos moradores da Providência. Josuel Bueno Ribeiro, 32 anos, conta que foi atingido por fragmentos de um tiro de fuzil disparado pelos soldados na tarde de sábado 14, quando todos já sabiam da morte dos três jovens. "Eu estava na praça com meus filhos pequenos. Ouvi os tiros e percebi que tinha sido atingido", relata. Priscila da Silva, 20 anos, prima de Wellington, sofre pela segunda vez com uma baixa em sua família causada pelo Exército. Em 2006, na primeira ocupação dos militares, os soldados mataram outro primo, Eduardo dos Santos, 16 anos, porque confundiram o guarda-chuva que ele portava com um fuzil. "Não agüento mais isso", chora ela. Outro morador da Providência, Luiz Alberto Ferreira, 34 anos, se considera um sobrevivente: foi levado de carro, pelos soldados, até a subida do Morro da Mineira e diz ter ouvido ameaças que, felizmente, não foram cumpridas. "Moro aqui há dez anos e nunca foi assim", lamenta.
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