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A mão pesada do exército
Violência contra civis em favela do Rio e morte de cadete na Aman revoltam a população e reacendem debates sobre o papel dos militares

Por ALAN RODRIGUES, FRANCISCO ALVES FILHO E RENATO GARCIA

RICARDO STUCKERT/AG. ISTOÉ
PARA QUÊ? Treinado para a guerra, Exército não sabe ser polícia

"Nenhum cidadão brasileiro deve ser considerado ou tratado como inimigo."
(Trecho do documento confidencial "Procedimentos Operacionais Padrão e Regras de Engajamento à Operação Cimento Social")

Sob o sol da manhã de sábado 14, na subida do Morro da Mineira, centro do Rio de Janeiro, deu-se um encontro insólito entre o tenente do Exército Vinícius Ghidetti e um dos traficantes que mandam na favela. Acompanhado de um sargento e nove soldados, o oficial apontou para três jovens detidos pelos militares e disse: "Trouxe um presentinho pra vocês." O bandido quis saber: "São alemão?" - na gíria que identifica integrantes da facção rival. "São da Provi", explicou o oficial, referindo-se ao Morro da Providência. Depois disso, despediu-se do bandido com um caloroso "Valeu!" Foi embora ainda sob o eco dos gritos desesperados dos três jovens, que pediam: "Pelo amor de Deus, eles vão nos matar!". E mataram mesmo, pouco tempo depois, no alto do Morro da Mineira. Não sem antes, como é de praxe na cartilha de crueldade do tráfico, torturar barbaramente os jovens Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, 19 anos, David Wilson Florêncio da Silva, 24, e Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17. Eles levaram 46 tiros, a maioria na cabeça. David teve parte do braço decepado, Marcos foi arrastado pelas pernas depois de morto e Wellington teve as mãos amarradas antes de ser executado. Os corpos foram achados horas depois, num vazadouro de lixo da Baixada Fluminense.

RAFAEL ANDRADE/FOLHA IMAGEM
DOR E LUTO Benedita (cabelos brancos), avó de David, Maria de Fátima, mãe adotiva de Marcos Paulo, e Lílian, mãe de Wellington (à dir.): elas não se conformam com o destino trágico dos garotos
FOTOS: ALEXANDRE SANTANNA/AG. ISTOÉ

O delito dos três jovens - detidos duas horas antes, no Morro da Providência quando voltavam de um baile funk - foi resistir à revista feita pelos soldados do Exército, que há seis meses ocupam a favela para garantir a execução do projeto Cimento Social, criado pelo senador Marcelo Crivella (PRB) e encampado pelo Ministério das Cidades. A partir de então, David, Marcos Paulo e Wellington passaram a ser tratados exatamente da forma inversa à recomendada no documento confidencial que baliza a atuação da tropa naquela comunidade: como inimigos. Também não foram observadas as recomendações de que "todas as ações deverão desenvolver-se obedecendo aos preceitos legais e jurídicos vigentes no País" e de que "a força só deverá ser empregada quando esgotados os meios pacíficos de resolução de conflitos". O crime inqualificável fez o País se lembrar dos piores momentos da ditadura militar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o episódio como "ato insano", "abominável" e defendeu indenização para as famílias das vítimas. Apesar da indignação, o governo federal é responsável pela atuação temerária e ilegal do Exército no Morro da Providência, pois permitiu que uma operação de garantia da lei e da ordem (GLO) fosse empreendida mesmo sem a aprovação oficial do presidente Lula e do Congresso Nacional. A lambança feita pela tropa verde-oliva no Rio é mais uma de várias recentes. A morte de um cadete em treinamento da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e a polêmica em torno da ação na Amazônia são outros casos que levantam questionamentos sobre o preparo e a atuação das Forças Armadas.

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25/6/2008


 
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