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Editorial  
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A volta da ciranda
DIVULGAÇÃO
Houve um tempo em que o salário recebido num dia já perdia seu valor na manhã seguinte. Um tempo no qual o rendimento da poupança estava sempre correndo atrás do aumento de preços e nunca - ou quase nunca - compensava a aplicação. Era o tempo em que vigorava a regra do perdulário: gaste hoje para não perder amanhã. Os brasileiros lembram bem do martírio. Não faz muito tempo. Da estabilidade pós-real à retomada inflacionária recente, sem escalas, eis que o País se deparou na semana passada com a informação de que a caderneta de poupança - a mais antiga, sólida e conservadora instituição dos investidores - teve seu rendimento do mês anulado pela inflação. Um susto, um alerta. Não valeram nem os juros altos diante da voracidade do índice de preços. Muitos administradores de carteira e poupadores, analistas e até membros do governo começaram a cogitar a retomada da indexação para evitar uma fuga em massa. Afinal, a caderneta ainda hoje impera como um dos grandes colchões de financiamento da retomada econômica. A caderneta em risco é uma face tenebrosa do fantasma inflacionário. A outra anda na ponta dos salários. Autoridades e empresários passaram a se preocupar com a temporada de dissídios dos trabalhadores que tem início no segundo semestre. Muitas categorias já pedem a recomposição integral das perdas. O salário mínimo e as aposentadorias têm incorporado não apenas a variação do período como também um ganho extra. Virou rotina de uns tempos para cá. Mas vai seguir nessa toada? Como o cachorro que corre atrás do próprio rabo, a onda de remarcações de preços sobre preços, sejam eles quais forem, põe para funcionar de novo a velha ciranda financeira. É a dança dos perdedores, o sarau de viciados na morfina da correção monetária! O perigo maior é que quanto mais se entra por esse caminho mais difícil fica a volta. Na roleta típica dos grandes cassinos, onde poucos espertalhões ou sortudos ganham em prejuízo da larga maioria, o único movimento de interrupção possível é quando o dono da banca decide parar com a brincadeira. Os brasileiros esperam o sinal do crupiê.

CARLOS JOSÉ MARQUES,
DIRETOR EDITORIAL


25/6/2008


 
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