Argentina em pé de guerra Conflito entre governo e ruralistas chega ao extremo e faz o país sofrer com estradas obstruídas, desabastecimento e risco de apagão
CAMILA PATI
A força da classe agropecuária ficou também explícita nos panelaços registrados nos últimos três meses. O governo se surpreendeu com o maior deles na noite da segunda-feira 16. Multidões marcharam por Buenos Aires, Córdoba, Rosário, Mar del Plata e Bahía Blanca, dois dias depois de a polícia ter detido um dos principais líderes ruralistas, Alfredo de Angeli.
No dia seguinte, a presidente Cristina Kirchner anunciou o envio do projeto de retenções móveis ao Congresso. "Trata-se de uma medida para dar mais legitimidade à mudança", diz Natanson. Embora tenha dado um passo rumo à conciliação, Cristina continuou com um discurso ácido contra os líderes ruralistas. "Eles que constituam um partido político", disse a presidente durante manifestação de apoio ao governo, que reuniu mais de 100 mil pessoas na Praça de Maio, em Buenos Aires.
A crise não está enraizada apenas na questão do aumento dos impostos. Para o economista José Márcio Camargo, professor da PUC do Rio de Janeiro, o país não fez o dever de casa. "Ao contrário do governo brasileiro, a Argentina deu o calote na dívida externa e não respeitou os contratos firmados a partir das privatizações dos anos 90." Isso tudo fez com que as empresas investissem menos no MAXIMILIANA LUNA/TELAM/IMAGEPLUS o país sofrer com estradas obstruídas, desabastecimento e risco de apagão país. "Em vez de aumentar os juros, o governo passou a controlar os preços e, com a alta das commodities, a taxar os lucros", explica Camargo. Celso de Hildebrand e Grisi, professor da Faculdade de Administração da USP, concorda."A Argentina vive um descontrole das contas, uma situação de corrupção, uma péssima gestão do dinheiro público, como o Brasil já viveu em outros tempos", diz, ressaltando que o governo Kirchner manipula dados, esconde a inflação e congela preços. Para garantir a oferta no mercado interno, Cristina mudou a forma de taxar as exportações. "A intenção é que fique difícil exportar, assim ela garante o abastecimento do mercado interno", afirma Grisi. Na sua opinião, a Argentina tem postergado medidas de ajuste fiscal. "Eles vão ter que pensar em algo como o Plano Real, com uma política cambial adequada e lei de responsabilidade fiscal", diz. A receita, tudo indica, parece ser brasileira.