Os motivos do atual choque do petróleo são bem diferentes dos da década de 1970. No passado, eles foram determinados por gargalos na oferta do produto, eventualmente artificiais, e os preços resultaram da formação do cartel dos países produtores. Hoje, o que se vê é um choque de demanda. Países como a China e a Índia, ao subsidiar o consumo interno, pressionam o mercado mundial. Há, ainda, um movimento de especulação. O petróleo ficou mais caro, mas nem por isso as fábricas e países estão consumindo menos. Com medo de que haja um estrangulamento, o mercado reforça os estoques.
Como na velha dialética do ideograma chinês, a crise é também oportunidade. O professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lembra que o preço em alta nos anos 1970 ofereceu a vários países a chance de partir para a exploração em altomar, chamada de offshore. Na época, o Brasil buscou fontes alternativas de energia, começando o programa do álcool. Assim, os gargalos atuais podem viabilizar a exploração do petróleo mais pesado da Venezuela e do Canadá. Também devem ganhar prioridade a energia eólica, os biocombustíveis e o gás natural.

Nos anos 1970, o Brasil produzia apenas 15% do que consumia. Hoje, graças a uma produção de 1,7 milhão de barris/ dia, tornou-se auto-suficiente e a Petrobras não pára de anunciar a descoberta de jazidas, como ocorreu na semana passada em relação ao campo de Guará, na Bacia de Santos. Além disso, a alta do preço do petróleo, como ressalta o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), “poderá viabilizar a exploração das reservas petrolíferas na camada pré-sal, da Bacia de Santos, que se encontram a oito mil metros de profundidade”. Também o etanol, diz Pires, pode abocanhar uma fatia maior no mercado. Alexandre Szklo, professor de planejamento estratégico da Coppe, concorda e lembra que a Agência Internacional de Energia tem apontado o Brasil como importante fator de adição de reservas. Soma-se a isso o domínio tecnológico que o Brasil detém na exploração offshore de alta profundidade, que deverá ser aproveitado não só na exploração da camada pré-sal da costa brasileira como também no Golfo do México e na África Ocidental. Na prática, o Brasil poderá sair lucrando com a atual crise do petróleo. Perde com a alta da inflação, mas ganha ao exportar tecnologia e commodities.
Colaborou Camila Pati
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