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ECONOMIA
Choque de realidade
O preço do barril dispara a caminho dos US$ 200 e o mundo entra na terceira crise do petróleo, que gera inflação e conflitos, enquanto o Brasil vive uma situação favorável graças à descoberta de novos campos e à produção de biodiesel e etanol. Mas só um estilo de vida sustentável pode amenizar os efeitos dessa onda

Para a maioria das famílias, a alta dos preços só pode ser compensada por um estilo de vida mais sustentável. O primeiro passo nesse sentido é o uso racional dos recursos energéticos – a condução econômica de um carro, evitando acelerações e freadas bruscas, pode economizar até 30% de combustível. Em Portugal, começa a dar certo um programa de carona solidária, impedindo que os automóveis circulem com só uma pessoa. As montadoras devem acelerar a fabricação de carros mais econômicos ou híbridos.

RICK BOWMER/AP/IMAGE PLUS

ESCALADA Preço do galão (3,8 litros) de gasolina não pára de subir e ultrapassa a barreira dos US$ 4 em posto de Pasadena, na Califórnia

Como nos choques anteriores do petróleo, o novo patamar viabiliza a adoção de tecnologias até então alternativas. Nas modernas construções, arquitetos e engenheiros têm o desafio de aproveitar ao máximo a energia e a luminosidade do sol. Em São Paulo, por exemplo, uma lei obriga os prédios de apartamentos a ter painéis de energia solar, como forma de reduzir o consumo e a poluição das caldeiras a óleo. Além de mudar hábitos, o petróleo caro deve forçar os governantes a adotar medidas que mudem a configuração das cidades. Na Europa, os bondes elétricos voltaram em quase todas as grandes cidades. Mais e mais prefeitos constroem ciclovias e incentivam o uso da bicicleta para pequenos trajetos urbanos. Em Paris, pode-se pegar uma bicicleta na vizinhança de uma estação de metrô e deixá-la em outra sem se pagar nada por isso – desde que o tempo não seja superior a meia hora de uso.

Algumas redes de supermercados na Europa começam a cobrar pela sacola plástica (derivada do petróleo, claro) para forçar o consumidor a usar sacolas de pano. Até mesmo nos Estados Unidos, que consumiram no ano passado 88 bilhões de sacos plásticos, começa a se difundir o hábito de carregar a própria sacola reutilizável. No mundo do barril a US$ 200, mais do que consciência, a adoção de hábitos sustentáveis virou uma questão de sobrevivência.

MUDANÇA NA FROTA

Por quase uma década, os americanos compraram mais utilitários e camionetas do que carros de passeio. O símbolo dessa tendência – e de todos os excessos – é o Hummer. Fabricado originalmente como veículo militar, ele virou moda urbana depois de uma bem-sucedida campanha junto às tropas americanas, na guerra do Golfo (1990- 1991). Entre os primeiros usuários civis do Hummer estava o protagonista de Exterminador do futuro, Arnold Schwarzenegger, atual governador da Califórnia. Grande bebedor de combustível, o Hummer acaba de cair em desuso. Com a escalada no preço dos combustíveis, ele se destacava entre os carrões que abarrotavam na semana passada o pátio da fábrica da General Motors em Moraine, Ohio. A fábrica, especializada em caminhões e off-roads, está entre as quatro unidades que a montadora pretende fechar nos próximos dois anos.

Ao anunciar uma série de mudanças decorrentes do aumento do preço do combustível, o presidente da GM, Rick Wagoner, disse que a tendência da empresa agora é investir em automóveis pequenos. “Os preços estão mudando o comportamento do consumidor”, lembrou Wagoner. Em sintonia com os números contabilizados nos últimos meses, o balanço das vendas da GM em maio deve ter influenciado a mudança de curso. Houve uma queda de 27,5% no total, sendo que entre os utilitários as vendas caíram 37%.

Outras montadoras registraram movimento similar. Na Chrysler, a diminuição nas vendas foi de 25%, mas carros que consomem menos, como o Jeep Patriot, tiveram sua vendas aumentadas em até 82%. Na Toyota, a queda foi menor, em torno de 7,9%, devido ao aumento das vendas de carros como o Toyota Corolla, de menor consumo, e do Prius Hibrid, que funciona com gás e eletricidade.

Em todo o mundo, não existe dúvida: chegou a hora dos carros de baixo consumo e dos que rodam com a chamada energia limpa. Na segunda-feira 9, o presidente Nicolas Sarkozy e a chanceler Angela Merkel fecharam um acordo para reduzir a emissão de gás carbônico dos automóveis produzidos em seus países. “É um importante avanço”, comentou a chanceler da Alemanha. O país é conhecido por fabricar carros de grande porte, que poluem e consomem mais combustíveis do que os pequenos modelos franceses.

DAVID MCNEW/GETTY IMAGES
SALDO Utilitários perderam valor no mercado

Quanto ao Hummer, a GM pretende colocar a marca à venda. Schwarzenegger, por sua vez, já se livrou do problema. Há dois anos, pressionado por ecologistas, vendeu o seu. Pelo menos pegou bom preço. Com liquidações de utilitários por todos os Estados Unidos, vender um utilitário nesse momento é, na certa, amargar prejuízo.


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13/6/2008


 
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