Na prática, o esforço para fazer florescer a resiliência se confunde um pouco com as técnicas de controle do stress e outras aplicadas para lidar com situações complexas (chamadas de coping). "O controle do stress remete a métodos para lidar com a sobrecarga - entre eles fazer esporte ou meditação. Já o coping refere-se às estratégias de enfrentamento que uma pessoa usa para suportar uma situação adversa. Diante da doença, pode rezar ou ir ao médico. A resiliência está relacionada a esses aspectos, mas considera fatores internos e externos", explica o médico e psicoterapeuta João Figueiró, de São Paulo, pesquisador do HC/SP que estuda o tema.
O sentido da resiliência, para alguns especialistas, é ainda mais profundo e está conectado com os primeiros estudos sobre o assunto. No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os psicólogos começaram a estudar as características de pessoas que não tinham sucumbido aos terríveis sofrimentos dos campos de concentração nazistas. Por que elas resistiram e outras não? O mesmo se via em crianças que conseguiam Fimanter o desenvolvimento normal, apesar da perda dos pais ou de terem sofrido traumas, como o assédio sexual. A princípio, pensava-se que possuíam algum tipo de invulnerabilidade, mas com o tempo as descobertas mostraram outras razões. "Hoje sabemos que há fatores de proteção que podem ser estimulados desde a infância. Um deles é a sensação de ser amado", diz a psicóloga Sandra Cabral Baron, da Universidade Federal Fluminense e coordenadora da rede Resiliência, projeto que combina várias formas de expressão artística, como dança, pintura e música, para fortalecer a criançada em situação de risco nas favelas cariocas. Na opinião da norueguesa Anne, de fato essas redes de apoio social, como organizações de bairro, entidades de jovens e até rodas de samba, têm um papel central na construção dessa capacidade.
A psicóloga Sandra segue a linha de ação do neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik, que tem viajado pelo mundo aplicando suas idéias sobre resiliência em países vitimados por catástrofes, como a Tailândia, atingida pelo tsunami, e a Bósnia, depois da guerra. Autor de cinco livros, dois deles traduzidos para dez idiomas, Cyrulnik é o protagonista de uma grande polêmica no campo da psicologia. Ele contesta a idéia de que pessoas que passaram por grandes traumas ou carências terão seu desenvolvimento limitado para sempre. "A nossa história não é nosso destino", afirma. Cyrulnik defende que é possível sobreviver criativamente aos traumas e redescobrir a alegria de viver, desde que a pessoa tenha experimentado na infância uma boa relação afetiva.
Por sua força, as teorias da resiliência são um campo novo e vasto que tem se mostrado extremamente importante em face das turbulências do mundo concontemporâneo. Elas têm sido cada vez mais aplicadas no atendimento a populações vulneráveis e castigadas por guerras e desastres naturais. Nas intervenções feitas nesses locais, os pesquisadores têm compreendido melhor os mecanismos que fazem uma pessoa e até uma cidade inteira responder de maneira positiva e criativa a uma catástrofe. Algumas dessas constatações foram tema de debate em abril deste ano, durante uma conferência que reuniu em Estocolmo, na Suécia, intelectuais de vários campos do conhecimento, como ecologistas, especialistas em ética, psicologia e sociologia. "Temos olhado apenas para as adversidades. Mas a existência de sociedades que se desenvolvem melhor do que outras, mesmo com problemas semelhantes, mostra que o ser humano tem recursos de autocorreção. E que eles nos dão a esperança de achar caminhos para melhorar os métodos de prevenção e proteção da saúde e bem-estar humanos", afirma.
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MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA VIDA MODERNA
EM CASA
Barulho e bagunça feitos por filho
Reação comum
Irritação, gritos repreensivos, tapas "educativos".
Atitude resiliente
Espere o auge da irritação passar. Explique que há regras na casa e que elas ajudam a viver em paz sob o mesmo teto. Repita quais são elas.
Empregada doméstica que quebra louça, queima roupa...
Reação comum
Queixas e escândalos freqüentes.
Atitude resiliente
Se você tiver receio de perder a empregada, e por isso não tem uma conversa franca com ela expondo sua insatisfação, tente superar esse temor em benefîcio de si próprio. Lembre-se que ninguém é insubstituível. Também avalie se deve reservar algum tempo para treiná-la.
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