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Mclanche Feliz
attuch@istoe.com.br

A história de Ray Croc é conhecida. Nascido em Chicago, filho de imigrantes, ele se associou em 1948 aos irmãos McDonald’s, que vendiam o hambúrguer mais conhecido da região. Em 1961, Croc comprou as lanchonetes por US$ 2,7 milhões, uniformizou o método produtivo e lançou um ícone não só da cultura americana, como da própria globalização. O segredo de Croc foi criar um padrão, como Henry Ford já havia feito com os automóveis. Em qualquer ponto do planeta, de Nova York a Bangcoc, o Big Mac teria de ser o mesmo e hoje o McDonald’s vale mais de US$ 70 bilhões.

Dias atrás, a cadeia de fast-food esteve presente no noticiário nacional porque dois de seus ex-diretores revelaram como a empresa comprou uma legislação tributária a seu favor no Brasil, com conhecimento da matriz, em Oak Brook, Illinois. Bastou depositar R$ 4,5 milhões na conta de uma consultoria ligada a dois ex-auditores da Receita Federal para que as deduções fiscais saíssem quentinhas da chapa. Tão simples como ir ao caixa, devorar o sanduíche e ainda sair com a lembrancinha do Ronald McDonald.

A CORRUPÇÃO PROSPERA NO BRASIL PORQUE SEU MÉTODO É TÃO BANAL COMO DEVORAR UM BIG MAC E LEVAR A LEMBRANCINHA

Isso surpreende? De maneira alguma. Assim como Croc padronizou seus hambúrgueres, a corrupção nacional segue um método, que vale para quase todos os escândalos. Na Alemanha, um ex-diretor da Siemens, Reinhard Siekaczek, acaba de revelar aos procuradores que a compra de contratos nos países emergentes, incluindo o Brasil, se dava de forma trivial. “Não havia arte alguma, era tudo muito simples”, disse ele. Segundo Siekaczek, nem sequer era preciso criar fundos clandestinos ou contas ocultas em paraísos fiscais. Bastava contratar advogados ou consultores de fachada indicados por quem tinha o poder de decidir – e tudo era feito, assim como no McDonald’s, com aval da matriz. Pule então da Siemens para a Alstom, a GTech, a Cisco, a Telecom Italia ou mesmo para os exemplos recentes do BNDES e da VarigLog. Sempre haverá um intermediário, agindo em nome de uma autoridade pública, disposto a encurtar o caminho entre o corruptor e o seu McLanche feliz. São tantos os casos, que o Brasil se tornou o país do escândalo fast-food. E o método Ray Croc, por aqui, tem milhares de seguidores.


11/6/2008


 
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