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ESPECIAL
O poder das milícias
Como policiais criaram no Rio de Janeiro um verdadeiro Estado paralelo para cobrar por segurança privada contra o crime e acabaram por transformar a população em seus reféns

Por AZIZ FILHO
Colaborou Eliane Lobato


Por reclamar do pedágio semanal de R$ 250 cobrado dos topiqueiros da favela da Covanca, zona oeste, o motorista Ledenir Clóvis Valente Júnior, 38 anos, foi executado com dois tiros na cabeça. Ele alegava que seu ganho, rodando diariamente das 6h à meia-noite, mal dava para o sustento da mulher e dos três filhos. A viúva, Giselle Chaves, 42, lembra que, no dia do crime, havia notado um movimento diferente dos milicianos logo pela manhã. “Fiquei agoniada ao ver que eles estavam circulando e ostentando fuzis. Quando cruzaram com a gente, riram”, lembra. No dia seguinte, o corpo de Ledenir foi encontrado na Kombi. Ela deixou a favela com escolta e vive escondida, exilada. “Me sinto sem rumo, meus filhos fazem tratamento psicológico.” A Covanca foi invadida em 2004, segundo a Polícia Federal, por um grupo chefiado pelo PM Jorsan Machado de Oliveira, colaborador da campanha de Álvaro Lins. Jorsan foi assassinado em 2006, após operação policial em que foram presos um coronel da PM e três policiais civis ligados a Lins. Uma das atrocidades mais violentas do miliciano era amarrar suspeitos de tráfico na parte de trás do veículo e arrastá-los pelas ruas.

Vinte e um dias após a tortura no Batan, a Draco prendeu o primeiro suspeito, reconhecido pelas vítimas. É Davi Liberato de Araújo, 32 anos, condenado a seis anos e sete meses por receptação e furto. Cumpria pena em regime semi-aberto em uma colônia agrícola, de onde saía para atuar como miliciano. É conhecido como “zero dois” na favela. O “zero um”, chefe do bando, reconhecido por fotografia pelas vítimas, seria o policial Odnei Fernando da Silva, de 35 anos. Lotado na 22ª Delegacia, na Penha, estava foragido até a noite de quinta-feira 5. Ex-agente penitenciário, Odnei – chamado de Dino ou Águia – é suspeito de matar um preso e entrou para a Polícia graças a uma liminar. O comando da polícia considera impossível identificar e condenar todos os torturadores. Eles usavam touca ninja no momento do crime, o que só aumenta a agonia dos sobreviventes. Perguntado sobre quando os jornalistas poderão voltar a trabalhar na cidade com segurança, Beltrame dá uma resposta tão curta quanto a esperança dos moradores do Rio: “Nunca.”

ALEXANDRE SANT’ANNA/AG. ISTOÉ
CRUZADA O delegado Cláudio Ferraz, da Draco, conseguiu a expulsão de 300 PMs suspeitos de estarem envolvidos com os grupos de milícias

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11/6/2008


 
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