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SEM FRONTEIRAS
A guerra nunca foi oficializada, mas os confrontos são contínuos. Em pouco mais de um ano, estima-se que pelo menos 200 pessoas tenham morrido nas trocas de tiros entre policiais e bandidos do Complexo do Alemão. Formada por 11 comunidades pobres, a região é conhecida como Faixa de Gaza carioca, em referência ao território onde palestinos e israelenses se enfrentam com freqüência. Acostumados a atuar em áreas de guerra ou regiões atingidas por catástrofes naturais, os Médicos Sem Fronteiras instalaram, no fim do ano passado, uma unidade de emergência na Fazendinha, localizada no centro do conjunto de favelas — e onde ambulâncias não entram. A iniciativa, muito bem-vinda para os quase 100 mil moradores, marca também uma triste realidade brasileira: é a primeira e única unidade dos MSF fora do conceito habitual. É nessa unidade que vítimas de balas perdidas e estilhaços de granada encontram atendimento após os tiroteios que fazem parte da rotina dos moradores, totalmente ilhados nesses momentos já que carros, motos e vans não ousam circular até o cessar-fogo. Financiados por doações, os MSF atuam no País desde 1991. Suas missões, como a unidade de emergência, normalmente duram de dois a três anos. A renovação varia conforme a necessidade. Tudo indica que o Rio ainda vai necessitar dessa ajuda por muito tempo.
ADRIANA PRADO |
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Pelas evidências, já engoliu. A desenvoltura do tráfico e a promíscua convivência entre o crime e o poder produziu um fato inédito no Brasil: a denúncia pelo Ministério Público de um ex-governador e ex-candidato a presidente, Anthony Garotinho, por formação de quadrilha armada. A Polícia Federal chegou a prender o deputado estadual Álvaro Lins (PMDB), ex-chefe da Polícia Civil, acusado de lotear delegacias e apoiar as milícias e os exploradores de máquinas caça-níquel. A Assembléia Legislativa viu falhas jurídicas na prisão e libertou o deputado, mas abriu processo por quebra de decoro. Na sessão que decidiu pela soltura, a deputada Cidinha Campos (PDT) afirmou que a Assembléia tinha competência legal para “livrá-lo do xadrez”, mas não legitimidade, já que “40% dos deputados” estariam envolvidos em escândalos, como desvio de dinheiro, corrupção, assassinato, extermínio, tráfico, etc. “Estamos implantando no Poder Legislativo o poder da bandidagem, da falcatrua, da falta de respeito à população e ao direito do Estado, ao Estado direito”, discursou a deputada.
Os tempos de obscurantismo não mudaram para muitos moradores do Rio de Janeiro. A lei do silêncio, imposta há décadas pelos traficantes, também está no código das milícias. O medo da morte faz com que pessoas honestas sejam submetidas às ordens de bandidos, já que o poder oficial não garante os direitos básicos de muitos cidadãos. Para muitos, a presença do Estado oficial, uniformizado, é delírio. “Eles não vão ficar aqui por muito tempo. E o que vai ser quando saírem?”, indaga um morador do Batan, sem se identificar.
A cabeleireira Dinorah Samantha, residente numa favela em Nova Iguafoifaçu, sonha em se mudar. Mas para onde? Ela teve o filho mais velho expulso na segunda vez em que foi flagrado fumando maconha e não se conforma em pagar R$ 7 a mais por um botijão de gás. Por incrível que pareça, Dinorah se esforça para fazer campanha para dois candidatos da mesma milícia que a explora. “Eles disseram que, se perderem a eleição, vão sumir da favela.” Não seria bom, para que seu filho pudesse voltar? Ela responde: “Antes da milícia, havia o tráfico. Minha irmã Iguafoi estuprada por oito e o filho de uma comadre foi espancado até a morte porque foi jogar bola na favela ao lado, de outra facção.” O Rio está assim, como Dinorah: não tem para onde correr.
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Há nove meses, a dona de casa Rosilane Amorim, 30 anos, repete com o filho caçula, de cinco anos, um triste diálogo. O garoto pergunta onde está o pai e ela diz que ele morreu. “Ele não morreu, mãe. Eu não fui ao enterro nem vi o caixão”, rebate o garotinho. A família vivia na favela Kelson, zona norte, onde o pai, Jorge da Silva Siqueira Neto, vendia botijões de gás. Em janeiro de 2007, milicianos decidiram tomar-lhe a empresa e ele se queixou à delegacia, acreditando viver numa sociedade justa. Oito meses depois, foi atingido por cinco tiros e o corpo foi levado pelos criminosos. “Estamos longe, mas não vamos descansar. A polícia não dá satisfação do caso, mas Jorge merece um enterro digno”, diz Rosilane.
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