Esse episódio de tortura deu visibilidade às milícias cariocas e chocou o mundo, habituado a se assustar com as atrocidades do narcotráfico no Rio. Geralmente formadas por policiais e bombeiros, que subcontratam desempregados para fazer rondas, esses grupos se apossam de favelas, exterminando traficantes e prometendo ordem e segurança. Mas, ao contrário, reinstalam a barbárie. O objetivo da equipe do O Dia era retratar em detalhes a convivência da população com a milícia no Batan, onde até a venda de água mineral é exclusividade do bando. Trata-se de um domínio que alcança muitos bairros e ruas da cidade. “Na semana passada, um homem bateu na porta da minha casa e avisou que não podia mais comprar gás do caminhão. Só pode comprar, agora, lá na loja que eles montaram”, disse a dona de casa aposentada que mora em um bairro no subúrbio, não identificada por motivos óbvios. Desanimada, ela não acredita em polícia, lei, Estado. “Isso é só pra rico”, desdenha.
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| FALSA PROTEÇÃO Milícias exploram medo do tráfico para fazer justiça com as próprias mãos. Problema para policiais da Draco |
O episódio com a equipe do O Dia, que repercutiu como atentado à liberdade de imprensa, remeteu ao ocorrido há exatos seis anos com o jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, que foi torturado e carbonizado em outra favela, após traficantes descobrirem que ele estava fazendo uma reportagem. A diferença entre os carrascos de Lopes e os do Batan é sintomática: do tráfico às milícias, o Rio se transformou em um palco de absurdos, onde o submundo se mistura ao poder. A Draco investiga a presença de viaturas da PM no Batan durante a tortura e as vítimas disseram que os policiais uniformizados do Batalhão de Policiamento em Vias Especiais (BPVE) costumavam tomar cerveja com os milicianos.
O primeiro caso conhecido de substituição do tráfico por milícias no comando de territórios é o da favela Rio das Pedras, na zona oeste, nos anos 80. Um mapa “geopolítico” das milícias, preparado pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, aponta 148 comunidades nas quais a atuação desses bandos é investigada. “O Rio está um caos há muito tempo. Estamos levantando o tapete e mostrando a sujeira”, diz o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, que coleciona 13 ameaças de morte do crime organizado. “Vamos até o fim, mesmo que custe nossas cabeças”, brada.
O que não falta é sujeira. Há muito se sabe que esses grupos faturam, também, nos serviços que as comunidades são obrigadas a usar, como o transporte em vans, taxas de água e ligações clandestinas de energia elétrica e de TV a cabo, além da famigerada “segurança”. Na Ilha do Governador, zona norte, moradores têm de pagar um dízimo de R$ 20 para milicianos que, supostamente, garantem a paz local. Na época de eleições, negociam com seus candidatos os votos no atacado. Quando o político compra o apoio, a milícia proíbe até a circulação de material dos adversários. Um dos torturadores do Batan se identificava como assessor do deputado estadual Coronel Jairo (PSC), que negou a acusação.
No front da Draco, o diretor Cláudio Ferraz já expulsou, em um ano e meio, 300 PMs, puniu 30 civis e demitiu nove. A ação mais ruidosa foi a prisão do vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, do PMDB, há seis meses, acusado de comandar milícias em 30 favelas. A vista grossa que o governo vinha fazendo, segundo o delegado Ferraz, é conveniente para muitos políticos. “O que prefere um mau político? Uma polícia bem adequada ou uma milícia que vende votos?” Para o secretário Beltrame, a tortura dos jornalistas elimina qualquer ilusão de que a milícia é uma alternativa melhor do que o tráfico. “É tudo crime organizado. Fazer vista grossa é alimentar a serpente que vai nos engolir.”
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