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ESPECIAL
O poder das milícias
Como policiais criaram no Rio de Janeiro um verdadeiro Estado paralelo para cobrar por segurança privada contra o crime e acabaram por transformar a população em seus reféns

Por AZIZ FILHO
Colaborou Eliane Lobato


RENATO GARCIA/AG. ISTOÉ
FOTOS: ALEXANDRE SANT’ANNA/AG. ISTOÉ
DEPOIS DO CRIME Carro da PM vigia a entrada da favela do Batan depois que os milicianos seqüestraram e torturaram jornalistas do jornal O Dia. Ninguém sabe mais quem é polícia e quem é bandido “GATO NET” Policiais da Draco apreendem material de tevê das milícias do Batan

"E stava escuro. A única luz vinha de um celular. Enquanto era torturado, eu tentava entrar em contato comigo mesmo para não sucumbir. Estava algemado, ajoelhado, com a cabeça para baixo.” A dramática declaração foi dada por um dos três integrantes da equipe do jornal O Dia, que permaneceu anônima nas duas semanas de maio em que morou na favela do Batan, no Rio, e consta do Laudo Diagnóstico dos Pacientes. No dia 14, a repórter, o fotógrafo e o motorista do jornal foram descobertos pela milícia dona da área. “Você está presa por falsidade ideológica”, disse um deles à repórter. O bandido se traiu ao dar voz de prisão como se fosse policial. O pior é que ele é. As milícias que dominam a cidade são formadas por policiais, que usam armas e técnicas de quartéis. Eles mantiveram a equipe sob tortura física e psicológica durante sete horas e meia. Descalços e com os olhos vendados, os três levavam chutes, pontapés e choques elétricos, eram asfixiados com saco plástico, ouviam o estalo dos revólveres encostados na cabeça em roleta-russa e recebiam ameaças de morte e estupro. Dois milicianos comandavam a cena, disfarçando as vozes. Um adotava “voz de pato”. O outro, imitando “voz do além”, anunciava, soturno: “Vocês escolheram a morte...”

Não houve morte, mas eles se prepararam para morrer seguidas vezes. Como no momento em que foram deixados dentro de um carro que, segundo aviso dos algozes, seria incendiado. Mais tarde, nova sentença: “Vamos fazer vocês cheirarem cocaína e jogar vocês cheios de drogas no Fumacê para que os traficantes cuidem de vocês.” O Termo de Declarações da repórter à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), ao qual ISTOÉ teve acesso, relata os horrores. “A intensidade das agressões aumentou, inclusive, com a chegada deles perguntando se já havia sido possuída por cinco homens ao mesmo tempo. (...) A depoente foi levada para um cômodo separada de seus companheiros, tendo sido aplicada seqüencialmente asfixia usando-se o saco e sendo dito que lhe enfiariam um cabo de vassoura. A declarante perdeu os sentidos, sendo reanimada com socos e pontapés (...).” Milagrosamente vivos – foram soltos em estado de penúria física –, hoje eles estão fora do Estado, incomunicáveis. A Polícia garantiu que não houve abuso sexual.

FOTOS: ALEXANDRE SANT’ANNA/AG. ISTOÉ
TERROR COTIDIANO Faixa de reunião de milicianos apreendida pela polícia. Giselle (à esq.) teve o marido assassinado e Dinorah tem que pagar mais pelo gás

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11/6/2008


 
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