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| FUTURO Silvia (acima) usou a droga certa. Renata prepara a implantação de exames em hospital paulista |
Está começando a era dos tratamentos customizados, de acordo com as características genéticas do paciente e, no caso do câncer, das células tumorais. A terapia personalizada será possível graças ao avanço em uma das mais modernas áreas da medicina, a dos chamados biomarcadores. Trata-se de um grupo de moléculas produzidas a partir da carga genética de cada indivíduo, cuja presença no organismo pode predizer qual será a reação do corpo à droga escolhida. Essa nova fronteira contra o câncer começou a ser aberta após os médicos constatarem que uma mesma medicação, por mais moderna que fosse, funcionava em alguns pacientes e em outros, não. Os pesquisadores foram buscar o que determinava essa diferença e chegaram nas tais moléculas. Hoje, a ciência se empenha na criação de testes que indiquem a presença dos biomarcadores, guiando, dessa forma, a escolha do medicamento. Alguns já estão disponíveis.
O mais recente progresso nesse tema foi anunciado na última semana, nos EUA, durante a 44ª reunião da Sociedade Americana de Oncologia Clínica. Um estudo do cientista Eric Van Cutsem, do Hospital Gasthuisberg, em Louvain, na Bélgica, provou que a presença de uma mutação em um dos genes que regulam o crescimento do tumor colorretal (no intestino grosso), o K-Ras, determina a eficácia do remédio cetuximabe. Quando a expressão desse gene é normal, a droga bloqueia vias associadas ao câncer. “Porém, nos pacientes com a mutação, ele não causou os efeitos esperados”, explica Van Cutsem. Por causa do trabalho, a Agência Européia de Medicamentos determinou que o remédio só seja usado depois do teste para identificar o problema genético – o exame é um dos que estão acessíveis.
Baseados nessas descobertas, há dois meses oncologistas do Hospital Sírio- Libanês, em São Paulo, estão pedindo os exames antes de se decidirem pelo remédio. “Temos agora como checar o alvo”, diz Antônio Carlos Buzaid, diretor-geral do centro de oncologia do hospital. Outros centros estão se capacitando para fazer o teste. “Acabamos de implantar as rotinas para sua realização”, diz a patologista Renata Coudry, do Hospital do Câncer A. C. Camargo, em São Paulo.
O mais conhecido exame do gênero identifica a proteína HER2 em mulheres com câncer de mama. Ele guia o uso da droga Herceptin, somente eficaz nas que apresentam a proteína. Foi o caso da paulista Selma Minuzzi, que teve um tumor de mama em 2005. “Usei o remédio. Hoje faço exames de monitoramento e me sinto tranqüila”, diz. Para os próximos meses, espera-se uma safra importante de remédios e biomarcadores. Por exemplo, está em fase final de pesquisa o vandetanibe, indicado para câncer medular de tireóide. Os pesquisadores, atendendo às novas exigências, estudam marcadores para a indicação da droga.
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A criação dos testes é resultado do refinamento da pesquisa dos tumores. “Estamos avançando no conhecimento dos mecanismos da célula tumoral que influenciam a evolução do câncer”, diz Luiz Fernando Lima Reis, diretor da pós-graduação do A. C. Camargo. Ele, por exemplo, investiga alterações na produção de proteínas que ajudarão a determinar a terapia para tumores de estômago e esôfago, cabeça e pescoço.
Por causa das dimensões dessa questão, pesquisadores de vários países vêm se reunindo freqüentemente. “Precisamos evoluir na identificação de genes associados ao câncer e combinar a pesquisa de drogas com as informações obtidas”, adverte Marie- Claire King, premiada cientista da área. Outra discussão é o custo da medicina personalizada. No Brasil, o preço do teste K-Ras gira em torno de R$ 600. Já uma rodada com cetuximabe, que deve ser ministrado quinzenalmente, é de cerca de R$ 12 mil reais. Na questão dos custos está a outra chave para o acesso à medicina do futuro.