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O Ártico derrete
E países abrem guerra para ficar com a maior reserva natural de petróleo que está debaixo dessas águas

Por TATIANA DE MELLO

COMPUTAÇÃO GRÁFICA SOBRE FOTO DE BELTRA/REUTERS
SOBREVIVÊNCIA Ursos estão com a vida ameaçada pelo degelo e pela cobiça de cinco países

Por que o Ártico, região de mar e gelo, tornou-se fruto de cobiça de cinco países? Explica-se: sob os seus gigantescos icebergs há a maior reserva de petróleo e gás natural do mundo. O tesouro estava muito bem protegido pelo gélido clima que impedia a navegação e a exploração. Ocorre, porém, que esses obstáculos naturais estão derretendo e assim a área revelou- se fonte de enorme potencial de recursos naturais e caminho importante e estratégico de navegação. No final de maio, a Dinamarca foi a idealizadora de uma reunião, realizada na Groenlândia, na qual se encontraram representantes dos países que reclamam para si o Ártico (todos banhados por suas águas). “Que nenhuma nação ouse prejudicar a outra. A ONU decidirá quem tem direito a qual área do Pólo Norte”, declarou o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Per Sitg Moeller, tentando apaziguar os ânimos. E não é sem motivo que o tom da discussão, vez ou outra, se exalte. Ali estão dez bilhões de toneladas de petróleo e gás, ou seja, um quarto das reservas de todo o planeta. São 400 bilhões de barris – para efeito de comparação, as reservas da Arábia Saudita, atualmente o maior produtor mundial, são de 262 bilhões e as do Brasil, de 12 bilhões.

Mesmo com altíssimo custo de extração, as reservas do Ártico enchem os olhos da Dinamarca, dos EUA, da Noruega, da Rússia e do Canadá. Hoje, a exploração de petróleo e gás natural é considerada inviável justamente porque é cara demais. O custo de extração beira os US$ 60 por barril, enquanto nas reservas brasileiras, por exemplo, o preço é US$ 20. Com o degelo, a maior barreira de acesso às riquezas não existirá mais, viabilizando a navegação e barateando a extração. A região mais disputada é a Cordilheira de Lomonossov, área submersa que vai da Groenlândia à Sibéria Oriental. A Rússia diz que essa porção é ligada a seu território por uma placa continental submersa e, por isso, tem direitos sobre ela. Para comprovar sua argumentação, enviou em agosto de 2007 dois minissubmarinos nucleares a 4,3 quilômetros de profundidade para reconhecer o solo. Viktor Posselov, subdiretor do Instituto de Pesquisa Científica de Oceanologia da Rússia, declarou: “Obtivemos material suficiente para demonstrar que a cordilheira submarina de Lomonossov está conectada à plataforma e é uma continuação da periferia continental da Rússia.” Coroando a missão, os russos fincaram uma bandeira de titânio no fundo do mar.

O Ártico é russo? A questão não é tão simples. Segundo a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, assinada em 1982, os países da região podem estender seu território para até 370 quilômetros. Ocorre, no entanto, que essas fronteiras são delimitadas pelas placas continentais – ou seja, a corrida é para comprovar até onde vão as tais placas. A Rússia tomou a frente e depois da expedição já pode alegar que a cordilheira começa na sua placa continental. Mas Canadá e Dinamarca também reivindicam o território. O Canadá disputa com os EUA a estratégica Passagem Noroeste, uma rota marítima que liga a Europa à Ásia em um caminho aberto com o degelo e mais curto que a rota tradicional. Economicamente, as perspectivas são interessantes: o Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA estima que em 2040 já não haverá mais gelo no verão Ártico. É bem possível, porém, que não seja preciso esperar tanto. O oceanógrafo espanhol Carlos Duarte afirma que em 2015 as muralhas de água congelada não mais existirão e, segundo ele, no verão de 2007 houve um degelo mais abrupto do que o que estava sendo observado: “Derreteram-se aproximadamente 20 quilômetros de gelo, e isso diariamente.” Alarmante? Para os cinco países banhados pelas águas do Ártico, acelerados na corrida pelo petróleo, não; para os ambientalistas, sim.


11/6/2008


 
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