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| FIDELIDADE Céleste, no quarto que foi de Proust, forrado de cortiça para evitar barulho |
Uma figura deitada em seu leito e quase invisível pela fumaça que tomava conta do quarto, “exceto pelos olhos que me observavam” – é assim que Céleste Albaret, governanta do escritor francês Marcel Proust (1871- 1922), autor da monumental saga de sete romances Em busca do tempo perdido, descreve o primeiro contato que teve com seu patrão. A cena está na biografia Senhor Proust (Novo século, 520 págs., R$ 59,90), que ganha agora a sua primeira tradução brasileira com 35 anos de atraso. A fumaça à qual a criada se refere não vinha de nenhum princípio de incêndio. Proust tinha o hábito de fazer fumegação assim que acordava, remédio eficiente para aplacar suas constantes crises de asma. E ele acordava bem tarde, geralmente às 14 horas, quando, mergulhado no nevoeiro do quarto, pedia seu petit déjeuner: café com leite e dois croissants. A refeição, no entanto, só podia ser providenciada se de seus aposentos totalmente forrados de cortiça para impedir a entrada de ruídos externos ele desse dois toques na campainha. São detalhes como esses que despertam grande interesse por qualquer biografia escrita por secretários, mordomos, motoristas ou seguranças. Numa época em que se convencionou dividir as biografias de pessoas vivas em autorizadas e não autorizadas, os relatos de empregados se enquadrariam no primeiro grupo: pela intimidade que desfrutam, esses profissionais seriam as pessoas com mais autoridade para falar de seus famosos empregadores.
Criada do romancista nos últimos nove anos de sua vida, Céleste conviveu com ele no período em que se despedia da vida mundana dos salões parisienses para se dedicar totalmente à obra que definia como “uma catedral”. O próprio Proust lhe deu a dica tarde da noite, ao voltar de suas andanças pelos locais chiques: “Minha querida Céleste, eu me pergunto o que você está esperando para escrever seu diário. Ninguém sabe como você o que eu faço, nem pode saber tudo que lhe digo. Depois de minha morte, seu diário venderia mais que meus livros.” Se o escritor errou em relação ao sucesso de seus romances, acertou no que tange à curiosidade das pessoas pela intimidade de famosos. Mas a empregada só viria a seguir o conselho meio século depois da morte de Proust, e, ainda assim, só para esclarecer, segundo ela, as “muitas coisas inexatas e mesmo completamente falsas que foram escritas sobre ele por pessoas que o conheceram menos do que eu, ou mesmo sequer o conheceram”.
Uma das “coisas inexatas” diz respeito à conflituosa sexualidade de Proust que apaixonou-se perdidamente por alguns amigos. O mais notório seria o secretário e ex-taxista Alfred Agostinelli, que o escritor teria levado para morar com a mulher em seu apartamento e que, segundo estudiosos, teria sido a inspiração para a personagem Albertine, a amante do narrador de Em busca do tempo perdido. Para mantê-lo ao seu lado, Proust teria pago seus estudos de aviação e presenteado- o com um monomotor. Mas “a freira da velocidade”, como Proust o chamava, morreria no segundo vôo, caindo no oceano. Sem abandonar a reverência contida no título de seu livro, Céleste rebate a versão da paixão homossexual. “Construiu- se toda espécie de história sobre a dor do sr. Proust diante dessa morte, e dos sentimentos que tinha, ou que tivera por Agostinelli. (...) O sr. Proust se interessara por ele, porque, como motorista, ele fora uma companhia agradável”, escreve ela, em mais um elogio à generosidade do patrão.
Que Proust era uma pessoa gentil e refinada, isso é sabido – e diversas vezes repetido pela empregada que conquistou sua amizade por ser, antes de tudo, também uma companhia agradável e espirituosa. Ela revela, por exemplo, que um dos prazeres do escritor, ao chegar do passeio noturno, era contarlhe tudo o que presenciara, matéria-prima de sua narrativa detalhista, chegando até a imitar os trejeitos dos nobres vaidosos e exibicionistas. Algumas dessas histórias poderiam até escandalizar a mulher de origem camponesa que tinha medo de pôr os pés nas ruas da agitada Paris da época. Numa madrugada, Proust lhe descreveu em detalhes a sua visita a uma “casa maléfica para homens” (expressão de Céleste), quando ficou num quarto vendo por uma pequena janela um famoso industrial ser açoitado por outro até chegar ao orgasmo. “O senhor pagou caro para ver isso?”, perguntou Céleste. “Sim, era necessário”, respondeu o escritor que usou essa passagem em um dos livros.
