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| PERFUME Natureza-morta do pintor Estevão Silva exala os cheiros das frutas que ele retrata |
Não bastasse o realismo de suas naturezas- mortas, o pintor carioca Estevão Silva (1844-1891) costumava esconder atrás de seus quadros, quando expostos, pedaços das frutas que retratava nas telas – e conseguia assim estimular não só a visão mas também o olfato de quem admirava a sua obra, proporcionando uma experiência sensorial mais abrangente. Ou seja: via-se por exemplo uma jabuticaba pintada e ao mesmo tempo sentia-se o cheiro dessa jabuticaba. Um desses seus trabalhos está agora no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre as 39 obras de diversos artistas que compõem a exposição Poética da percepção. O objetivo da mostra é fazer com que o público olhe, toque, ouça, sinta o aroma e até o sabor daquilo que está exposto. “A arte não pode se limitar a um dos sentidos. No caso da tela de Estevão da Silva (retratando uma melancia), os espectadores poderão, por exemplo, imaginar pelo odor o que está sendo representado”, diz o curador da exposição, Paulo Herkenhoff.
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| CORES Palmeira com flores, da artista Leda Catunda |
Há nela 35 artistas brasileiros (do século XIX ao XXI) que, segundo Herkenhoff, “dedicaram-se à aprendizagem de uma poética dos sentidos”. São nomes como Leda Catunda, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Ascânio MMM, Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler. Vale citar a famosa instalação Chuva, do grupo Chelpa Ferro, que explora a audição dos espectadores: ligado a um vibrador, um galho de árvore repleto de vagens secas se movimenta e emite som semelhante ao da chuva. “Geralmente, os trabalhos do nosso grupo têm som e movimento”, diz Barrão.
Aquilo que se vê em um trabalho de arte é o menos relevante para o artista plástico paraense Bené Fonteles. Na obra Para os cegos que vêem, ele estimula o tato. E, como a ordem é tocar, é com as mãos que se torna possível saber o que há em 12 sacos de pano pendurados, um ao lado do outro. O mesmo acontece em Narizes e línguas, da fluminense Lygia Pape, que apela ao olfato: são cinco caixas de madeira de tamanhos variados e vazias. “A idéia é discutir até que ponto a cegueira nos ajuda a entender a própria visão. Não adiantar olhar, porque as caixas estão vazias. Mas têm cheiro. Assim é possível saber o que haveria dentro delas”, diz Herkenhoff. Todas as obras são acompanhadas de uma placa em braile, que, além de passar informações sobre o trabalho, dá dicas aos deficientes visuais. “A placa os orienta no toque ou no olfato, para que não dependam de ninguém”, diz o curador.