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ZECA BALEIRO
Na contramão

O episódio da bancária que andou alguns quilômetros na contramão da turbulenta avenida 23 de Maio, em São Paulo, dias atrás, é o quinto “caso de contramão” registrado na cidade e arredores nos últimos cinco meses. Impossível não perguntar, pois: O que estaria acontecendo a essa gente ou, quem sabe, à contramão?

Como metáfora de transgressão, estar “na contramão” constituiu-se em um charmoso status ao longo do tempo, graças em parte a tristes períodos de retrocesso político, como os anos de repressão militar no Brasil. Algo como a mescla de consciência política com espírito anárquico, que passava pela quebra de regras de comportamento e afronta à sociedade, quase sempre pela via das drogas e da liberação sexual. Não à toa, esses anos tiveram seu apogeu artístico batizado de contracultura, na passagem dos 60 para os 70, quando ser “do contra” era o máximo em termos de postura política – postura que às vezes nem política de fato era. Como se vê, até a cultura era “contra”, embora nem todos soubessem exatamente contra o quê.

Minha porção filósofo de botequim não se contém e indaga: O que estaria levando as pessoas de hoje a esta contramão literal e suicida (em fevereiro, outro bancário morreu na contramão da rodovia Castelo Branco, ao bater de frente com um caminhão; em março, um ônibus entrou na contramão da Bandeirantes e chocou-se com um carro, matando seus dois ocupantes)? Seria o óbvio desespero de se ver num trânsito sem saída, a pressão do dia-a-dia febril numa megalópole sem aparente solução?

Minha porção filósofo de botequim não se contém e indaga: O que estaria levando as pessoas de hoje a esta contramão literal e suicida?

Um desprezo irresponsável pelas regras básicas de civilidade?Apenas isso? Ou mais?

O que havia de transgressão na expressão “andar na contramão” perdeu o ar contestador. Com o tempo, muitas palavras e atitudes perderam o estofo transgressor e tudo tornou-se passível de desconfiança. A indústria cultural apropriou-se da rebeldia, fabricando produtos talhados para a ânsia de chutar o balde comum a adolescentes e jovens; a publicidade lançou suas garras de cinismo sobre o mundo e toda contestação foi se tornando vazia de sentido e credibilidade. Naturalmente, todo gesto que era honestamente contra o estabelecido passou a estar sob suspeição (a propósito, há minutos atrás, vendo um site de games com meu filho, li um “reclame” que dizia: “Seu celular também pode ser rebelde” – rebelde aqui fazendo alusão ao seriado mexicano que virou febre entre crianças e teens, não a uma atitude rebelde genuína, coisa que os celulares, inanimados como são, não seriam capazes de ter, imagino eu).

Esvaziados os sentidos (e o peso) de se contrapor a algo, seja ao sistema político em voga, seja ao rumo que a vida tomou neste tempo consumista e veloz ou mesmo à falta de controle sobre o próprio destino, as pessoas agora se lançam nesta contramão desesperada, talvez até como uma forma de dizer ao mundo, de um jeito radical, no limite da sanidade: “Retrocedam, voltem atrás, mudem o curso, ainda há tempo.” Mas talvez seja tarde demais para andar na contramão.

Zeca Baleiro é cantor e compositor


11/6/2008


 
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