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Quando os médicos adoecem
Psiquiatra americano conta como a experiência de ficar doente muda a forma de os profissionais de saúde atenderem os pacientes

Por CILENE PEREIRA

ISTOÉ – Que outras lições eles tiraram?
Klitzman – Eles notaram, quando deitados na cama como doentes, que o fato de seus médicos se sentarem na beira do leito, em vez de ficar em pé, ao lado da cama, faz uma grande diferença. Esta postura demonstra mais proximidade, acolhimento. Deixa o doente mais à vontade e seguro em relação a quem o está tratando. Por isso, quando voltaram ao trabalho, eles mudaram sua maneira de se aproximar dos pacientes. Começaram a se sentar próximo em vez de ficarem distantes, em pé.

ISTOÉ – Há outro exemplo?
Klitzman – Sim. Um cirurgião me disse que, quando ele foi submetido a uma operação, ouviu de seu médico, na noite anterior ao procedimento, algo como “existem 5% de chance de você morrer amanhã na sala de operação”. Este médico me contou que não conseguiu dormir naquela noite. Somente depois ele concluiu que seu cirurgião poderia ter mudado a forma de dizer o que falou. Poderia ter dito, por exemplo, “existem 95% de chance de que você continue vivendo depois de amanhã”. Este indivíduo me disse que praticava a medicina havia 30 anos e nunca percebera que essas duas afirmações, que estatisticamente são as mesmas, tinham significado emocional tão diferente para os pacientes. Como conseqüência, ele agora alterou sua maneira de informar os pacientes sobre suas chances de vida e tem orientado seus residentes a fazer o mesmo.

ISTOÉ – E quanto ao tratamento recebido dos enfermeiros?
Klitzman – Vários médicos disseram que, quando eles deixaram as enfermarias onde estavam internados, as enfermeiras disseram: “Você foi um bom paciente. Não nos incomodou em nenhum momento.” Eles ficaram perplexos com este tipo de comentário. Então a definição de “bom paciente” era a que fazia menção ao doente que não incomodava seus cuidadores.

ISTOÉ – Como ter ficado doente pode ajudar um médico a ser um profissional melhor?
Klitzman – De muitas maneiras. A experiência ajuda, por exemplo, a enxergar os erros de comunicação com o doente e a tentar melhorar essa aproximação. Os médicos que entrevistei disseram que a comunicação com seus especialistas era muito pobre. Agora, eles oferecem sugestões sobre como os doentes podem obter explicações precisas e compreensíveis sobre termos técnicos ou vagos demais. Eles conseguem interagir melhor com os pacientes.

ISTOÉ – Como isso passou a ocorrer na prática?
Klitzman – Alguns médicos ouviram de seus próprios especialistas coisas como “bem, seu câncer não deve reaparecer tão cedo” ou “muito rápido”. Mas o que é “tão cedo” ou “muito rápido”? Essas expressões significam semanas, meses ou anos? Ao passarem por essa situação, viram que devem dizer claramente o que são esses termos “rápido”, “devagar” ou “momentaneamente”. E admitiram que os pacientes podem e devem exigir de seus médicos definições mais precisas de expressões ambíguas. Além disso, eles sempre desprezavam parte das reclamações dos pacientes. Apenas quando se tornaram doentes é que começaram a levar muitas queixas mais a sério, percebendo como o cansaço freqüente, a insônia ou a náusea, sintomas considerados menores, poderiam ser muito mais incômodos e estressantes do que eles popodiam imaginar. Antes, quando o doente se queixava, pensavam: “É outro paciente que gosta de reclamar.”

"“Só depois de sentirem dor é que eles entenderam a intensidade do sofrimento que isso representa para o indivíduo"

ISTOÉ – Há algum caso específico que ilustre essa questão?
Klitzman – A história de uma gastroenterologista que entrevistei é exemplar. Ela tratava dores abdominais e, de repente, começou a manifestar também o problema. Sabe o que esta médica me confessou? “Não tinha idéia de que, quando os pacientes falavam de dor, era aquilo terrível que eu estava sentindo. O sofrimento ia muito além do que podia ser descrito pelas palavras e eu mesma tive dificuldade em transmitir o que estava havendo comigo.” Este relato, assim como o de muitos outros que admitiram jamais terem imaginado a intensidade e os danos que causavam sintomas como dor e náusea, mostra quanto a maioria dos médicos ignora o padecimento dos doentes.

ISTOÉ – No livro, o sr. afirma que os médicos são ensinados a se colocar acima das doenças e dos doentes. Por que afirma isso?
Klitzman – Os estudantes de medicina implicitamente aprendem a ajustar- se à hierarquia médica, da qual obviamente fazem parte. Eles sempre vêem um médico experiente acima deles e os pacientes na última escala do ranking. Na pesquisa que fiz para o livro, médicos disseram, por exemplo: “Quando eu era apenas um paciente...” A frase revela como consideram o indivíduo que estão tratando. A educação médica tem de levar essas questões a sério e modificar esse entendimento.

ISTOÉ – O sr. também diz que os pacientes tendem a sentir medo dos médicos e assumir perante eles uma posição de reverência.
Klitzman – Realmente. Fiquei surpreso de ver que até mesmo os médicos com quem conversei tentaram ser “agradáveis” aos seus especialistas, queriam ser cooperativos e não dar más notícias a eles. Eles próprios ficaram surpresos de notar como “editavam” o que falavam para os profissionais de saúde. Descobriram que quando o médico lhes perguntava “como você está?”, eles respondiam “ok”, mesmo quando não se sentiam bem. Viram ainda que, quando falavam de seus problemas, suas dores, os médicos tendiam a ficar impacientes e de cara feia. No final, eles começaram a notar que seus próprios pacientes “editavam” o que sentiam.

ISTOÉ – Isso é um problema grave?
Klitzman – Os doentes apresentam a tendência de ser cautelosos e reverenciar os médicos, o que os impede de ter uma comunicação correta dos sintomas.

ISTOÉ – Como os médicos reagiram ao seu livro?
Klitzman – Para minha surpresa, meus colegas responderam de forma muito positiva. Acho que o livro despertou algo dentro deles: o lado humano que vive debaixo de seus aventais brancos. O livro conta histórias bem humanas – a minha e as outras – e penso que os leitores, incluindo os médicos, reconhecem isso. Eles conseguem se ver naquelas situações, o que, espero, os faça refletir mais sobre suas atitudes para com os doentes.

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11/6/2008


 
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