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Quando os médicos adoecem
Psiquiatra americano conta como a experiência de ficar doente muda a forma de os profissionais de saúde atenderem os pacientes

Por CILENE PEREIRA

CHARLES MANLEY/COLUMBIA UNIVERSITYNada como viver o outro lado de uma mesma situação para enxergá- la de maneira diferente. Quando se trata de um médico que experimenta a circunstância de ser, ele próprio, o doente, o impacto pode ser profundo. A experiência deixa lições marcantes e resulta na maioria das vezes em uma mudança drástica na maneira de praticar a medicina. Algo como antes e depois de ser doente por um dia. Esta foi a constatação do psiquiatra americano Robert Klitzman, professor associado de clínica psiquiátrica da Universidade de Colúmbia, em Nova York, nos Estados Unidos. A conclusão foi obtida a partir de duas fontes. A primeira, ele mesmo. Dias após o ataque de 11 de setembro, em 2001, Klitzman caiu deprimido. Além da tragédia em si, o atentado atingiu diretamente sua família, já que sua irmã estava entre as vítimas. Mesmo com todos os sintomas da doença que conhece tão bem, o médico relutou em aceitar o diagnóstico. Aos que mencionavam a possibilidade de o psiquiatra estar com depressão, ele respondia que na verdade estava apenas gripado. Havia dois problemas aí. Klitzman se sentia envergonhado e fraco, exatamente os sentimentos que tanto lutara para tirar de seus pacientes. O psiquiatra também manifestava a típica característica da categoria de se sentir imune às enfermidades. “Acho que os médicos pensam que vestem mágicos casacos brancos. Doenças acontecem para todos os outros, menos para eles”, diz.

A experiência pessoal o despertou para a reflexão. Klitzman queria entender mais sobre as sensações, os medos e as descobertas dos médicos quando eles mesmos eram os doentes. Para isso, o psiquiatra entrevistou 50 colegas que haviam passado por essa vivência. O resultado da investigação está descrito no livro Quando os médicos se tornam pacientes, lançado nos Estados Unidos. A obra é a primeira sobre o tema e traz achados surpreendentes. Os médicos relataram, por exemplo, que só depois de ficarem internados é que perceberam como um ambiente avariado, com janelas ou aparelhos de tevê quebrados, interfere no estado de ânimo do enfermo. Eles também confessaram ter sentido na pele o que é sofrer com os sintomas considerados menores pelos profissionais de saúde – entre eles a dor, a náusea e a insônia – e não receber a atenção necessária. E todos, sem exceção, admitiram que mudaram a forma de tratar seus doentes após deixar o hospital. “Eles passaram a ver os doentes e a si mesmos de maneira radicalmente diferente. Tornaram- se muito mais sensíveis às queixas e às necessidades das pessoas a quem atendem”, disse o psiquiatra nesta entrevista à ISTOÉ.

ISTOÉ – O que o levou a escrever o livro?
Robert Klitzman – Decidi escrevêlo em grande parte por causa de minha experiência. Infelizmente, tive uma irmã que morreu no ataque de 11 de setembro de 2001. Por várias semanas, senti toda a tristeza do luto, mas também não conseguia me levantar da cama. Meus músculos e meu corpo inteiro doíam. Só me sentia confortável debaixo dos lençóis frescos da minha cama. Eu pensava que estava gripado, mas amigos me diziam que os meus sintomas levavam a crer que era depressão. Eu respondia: “Não, estou apenas gripado.” No final, eles estavam certos. Eu tinha todo o treinamento de um psiquiatra, mas não havia reconhecido que os sinais indicavam a doença. Fiquei surpreso por ter falhado no meu próprio diagnóstico. Comecei a me perguntar o que acontecia com outros médicos que, como eu, ficavam doentes. Como eles encaravam essa nova condição.

ISTOÉ – Por que o sr. resistiu à idéia de que estava com depressão?
Klitzman – Hoje, olhando em retrospecto, entendo que resisti em reconhecer meus sintomas por causa da sensação de vergonha. Via muitas vezes outros médicos se referindo aos pacientes como “um deles”, não como “um de nós”, e quase sempre olhando-os de cima para baixo. Não queria que isso acontecesse comigo. Além disso, eu realmente me sentia um fraco. Era como se algo estivesse errado comigo.

SHUTTERSTOCK
"Muitos médicos perceberam que precisavam explicar melhor aos pacientes termos vagos ou complicados"

ISTOÉ – Como o sr. produziu o livro?
Klitzman – Eu verifiquei a literatura científica e descobri que existem poucos casos relatados de médicos que ficam doentes e registram sua experiência. Duas compilações feitas por esses poucos profissionais tinham sido publicadas, mas apenas apresentando um caso atrás do outro, sem analisar as histórias, suas similaridades e diferenças ou discorrer sobre áreas que alguns médicos preferem não discutir. Então, resolvi escrever o livro, o primeiro sobre esse tema, baseado no que vivi e nos depoimentos dos 50 colegas que entrevistei.

ISTOÉ – Quais foram suas principais constatações?
Klitzman – Muito do que os médicos me disseram me surpreendeu. Por exemplo, o fato de eles terem ficado doentes os fez voltarem-se mais para as questões espirituais. Antes, boa parte costumava não dar importância a pedidos de pacientes como “o senhor rezaria por mim?”. Mas, como doentes, perceberam quanto essa questão era importante. Por isso, muitos quiseram se tornar mais espiritualizados porque viram que isso poderia ajudar seus pacientes de alguma maneira. O problema é que vários eram muito “cientistas” e acabaram tendo problemas de acreditar de fato em alguma coisa. Curiosamente, estes médicos diversas vezes disseram que se sentiam deprimidos, o que, na opinião deles, era resultado da falta de espiritualidade ou levava a ela.

ISTOÉ – O que mais o surpreendeu?
Klitzman – Depois de ficarem internados, os médicos passaram a perceber quantos detalhes ignoravam, mas que são importantes para os pacientes na medida em que carregam um grande peso simbólico: constataram que não é nada bom ficar deitado em um quarto de hospital com janelas quebradas, sem flores, com tevês e aparelhos de som quebrados, sentados ou deitados vestindo apenas uma camisola aberta nas costas, por exemplo. Estes detalhes concretos fizeram os especialistas notarem pela primeira vez a força dessas indignidades.

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11/6/2008


 
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