Em volta do Estádio Nacional de Pequim – já apelidado de Ninho devido ao formato de ninho de pássaros –, um canteiro esburacado e muitos tapumes separam os visitantes do local que será palco da abertura e do encerramento dos jogos. A megaconstrução que poderá receber 100 mil pessoas durante a Olimpíada teve investimento de US$ 420 milhões. Quem ainda pretende assistir a algum dos jogos, deve preparar o bolso: as entradas estão custando até 25 vezes mais caras nas mãos dos cambistas. Os guindastes também trabalham em um conjunto de prédios de luxo nas imediações cujos apartamentos custam até US$ 7 milhões.
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| CONSUMO Loja da Bulgari em Pequim, onde o trânsito abriga de bicicletas a Rolls-Royce |
Perto do Ninho, o Centro Aquático Nacional – que também já ganhou o apelido de Cubo de Água (gelo) porque é exatamente essa a sua aparência – teve um orçamento mais modesto para os padrões chineses, mas ainda bastante alto: US$ 100 milhões. O guia turístico Liu Qing Liang sabe que vai trabalhar muito, mas está feliz: “Será um momento especial na China!” Uma transeunte concorda em dar uma rápida entrevista para ISTOÉ, através de um tradutor de mandarim, a língua oficial. “É a hora de os chineses realizarem seus sonhos. Estou curiosa”, diz a moça de roupa vermelha, coincidentemente a cor do Partido Comunista e predominante em espaços públicos. Mas, ao ser perguntada sobre seu nome, ela sai em disparada. A explicação é simples: chineses não estão acostumados à liberdade de expressão e têm medo de falar demais e acabar na prisão. As transformações ainda não são suficientes para dar ao povo a certeza de que a liberdade abriu as asas. Até porque, isso ainda não aconteceu. Mesmo.
Liberdade é algo mais distante, ainda, das mulheres. Porém, no processo de mudanças em curso, são elas mesmo que têm experimentado verdadeiras revoluções. As mulheres evoluíram da quase insignificância para o começo da conquista da independência. Estão longe de ser cidadãs de primeira classe, mas se libertam aos poucos do sistema patriarcal que as domina desde os tempos das dinastias, como a Shang (1600-1050 a.C.). Devido à política do filho único implantada há quase três décadas, muitos pais abortaram fetos do sexo feminino – segundo dados oficiais, mais de oito milhões de meninas foram abortadas – por acreditarem que um filho homem teria mais chances no mercado de trabalho. Dizem que muitas foram mortas após o nascimento, o que significa, então, assassinato. Mas especialistas afirmam que, por mais danos que a política do filho único possa ter trazido, o saldo é melhor do que se o país tivesse quase dois bilhões de pessoas, em vez do 1,3 bilhão atual. O resultado dessa matança é que há, em média, três homens para cada mulher, hoje. Calcula-se que em 2020 a maioria dos homens estará em idade núbil. Mas os 30 milhões a mais de homens vão casar com quem, se faltam mulheres na China?

O vice-diretor do Instituto de Estudos sobre a Mulher, Liu Bohong, não acredita que esse desequilíbrio seja resultado da política de planejamento familiar: “É mais provável que resulte da idéia bem enraizada da cultura chinesa de que homens são superiores às mulheres.” Por outro lado, à medida que o país se torna uma grande potência capaz de ultrapassar os Estados Unidos até 2030 – essa é a estimativa de especialistas –, mais as mulheres se preparam e avançam no mercado de trabalho. No livro As boas mulheres da China, a autora, Xinran, diz que os chineses ricos “estão mais exigentes: uma mulher sem diploma vai conseguir atrair apenas algum pequeno negociante. Quanto melhor o seu nível de educação, maior a chance de fisgar um grande empresário”.
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