ISTOÉ – Crianças altamente criativas deveriam ser colocadas em escolas ou classes diferenciadas, para desenvolver melhor suas habilidades?
Weisberg – Não sou um educador e por isso não tenho certeza se faria uma grande diferença separar o aluno muito criativo do restante.
ISTOÉ – Qual o papel da criatividade no ambiente de trabalho?
Weisberg – Hoje se vê que muitas empresas tentam organizar o ambiente de trabalho para enchê-lo o máximo possível com elementos que estimulem a criatividade. Algumas dizem a seus funcionários: passe 20% do tempo pensando apenas em coisas que digam respeito a você e não ao trabalho.
ISTOÉ – E isso traz resultados?
Weisberg – Claro. Em empresas que criam um ambiente propício para estimular a criatividade de seus funcionários, as grandes idéias costumam vir de baixo para cima, e não o contrário. A Toyota é um exemplo disso. Todos os funcionários, da idealização à linha de montagem, são estimulados a opinar sobre o que funciona e o que poderia ser melhorado no carro que estão produzindo.
ISTOÉ – Em ambientes de trabalho mais formais, o que se vê é o contrário: o supercriativo é deixado de lado na hora das grandes decisões. Por que isso acontece?
Weisberg – É uma questão intrigante e eu não entendo por que isso ocorre. Há empresas que são conhecidas como fábricas de idéias, onde tudo é informal. Os funcionários podem trabalhar vestindo bermudas, e ninguém usa terno e gravata. Na Califórnia existe um punhado delas. Eles têm pranchas de surfe penduradas na parede e quem quiser ir à praia pegar umas ondas pode fazê-lo sem problemas. A idéia é deixar a pessoa livre para perseguir suas idéias. É o chamado “pensamento fora da caixa” (do inglês, out of the box thinking). Acontece que isso não é a base da criatividade, e, nesse sentido, a distinção entre pessoas altamente criativas e o restante de nós está errada. Gênios podem funcionar tão bem quanto a média da população na tomada de decisões e deveriam ser estimulados a fazer isso assim como são estimulados a desenvolver seu trabalho criativo.
| “Na Toyota todos os funcionários, da idealização à linha de montagem, são estimulados a opinar" |
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ISTOÉ – É comum a associação entre grande criatividade e doença mental, como transtorno bipolar ou esquizofrenia. Existe hoje evidência científica suficiente para fazer essa relação?
Weisberg – Não. E é preciso ter cuidado com essa associação. Já há evidência de que uma pessoa com tendência à bipolaridade pode ficar maníaca quando consegue atingir uma meta que foi perseguida com afinco, como pintar um quadro ou desenvolver uma nova invenção. Esse é um dos motivos pelos quais se tende a relacionar loucura e criatividade. Mas nem sempre é assim. Também se sabe que, quando estão no auge das fases depressiva ou eufórica, essas pessoas não conseguem trabalhar bem. Muitos artistas crêem que parar de tomar a medicação vai deixá-los mais criativos para produzir suas obras, e o que acontece é terrível: muitos cometem suicídio. A relação entre loucura e genialidade é complicada demais para ser reduzida a uma simples associação com a prevalência de doença mental em pessoas altamente criativas.
ISTOÉ – Os recursos disponíveis hoje para desenvolver as capacidades humanas estão cumprindo seu objetivo?
Weisberg – Eles ajudam muito. Quando, há dois séculos, um pensador cujo nome não lembro agora vaticinou que já não havia mais nada para inventar, Albert Einstein apareceu e virou tudo de cabeça para baixo. No início deste novo milênio, muito se especulou sobre o que aconteceria com a humanidade e a verdade é que ninguém sabe. Acho que sempre será assim. Quando achamos que nada mais pode ser inventado, é só sentar e esperar o dia seguinte.
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