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MEDICINA & BEM-ESTAR
Uma nova chance para eles
A histórica decisão do STF em favor das células-tronco embrionárias revoluciona a medicina brasileira e abre a possibilidade de cura a milhares de pacientes

Por CILENE PEREIRA, GREICE RODRIGUES E SÉRGIO PARDELLAS
Colaborou Camila Pati


Desde 2005, quando a lei foi aprovada, poucos grupos se arriscaram a trabalhar com células embrionárias, importadas de outros países. Com a indefinição sobre a legalidade das pesquisas, os cientistas sentiam-se temerosos de ser obrigados a interromper as investigações caso a decisão do STF fosse contrária. O resultado é que nesses três anos apenas seis projetos com as embrionárias tomaram curso no País. Em compensação, estão sendo realizados 49 protocolos com células-tronco adultas. Essas estruturas são extraídas basicamente da medula óssea e do cordão umbilical. São fontes mais acessíveis, obviamente, mas o problema é que as células adultas apresentam menor potencial de transformação. Isso significa que elas podem dar origem a determinados tipos de tecidos, não a todos, como ocorre com aquelas retiradas de embriões.

Os projetos com embrionárias em andamento receberam do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) R$ 9,4 milhões em financiamento. Todos os trabalhos estão incluídos no que se chama, em ciência, de pesquisa básica. Ou seja, os pesquisadores estão realizando análises ainda muito iniciais sobre o funcionamento das células embrionárias, suas características, maneiras de extraí-las e de cultivá- las, entre outros aspectos. Mesmo sob essas circunstâncias, o País pôde comemorar alguns feitos importantes. Um deles foi a criação de neurônios. O autor é o professor Steven Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

MURILLO CONSTANTINO/AG. ISTOÉNOVO MOVIMENTO
Os quatro tiros disparados em um assalto e que tiraram a mobilidade das pernas de Marcos Vasconcelos em 2002 não o impedem de praticar esporte em São Paulo. Todos os dias ele sai de cadeira de rodas de sua casa e pega ônibus e metrô para jogar tênis. É um calvário. Como há poucos ônibus adaptados aos cadeirantes, Marcos organiza sua rotina de acordo com os horários desse tipo de transporte. “Se eu pudesse dar dois passos e conseguisse me segurar já seria um ganho enorme”, diz ele, torcendo para que esse momento lhe seja possibilitado com tratamentos à base de células-tronco embrionárias.


SEM LIMITES
Até meados do ano passado a paulista Ingrid Fogliemi, 20 anos, levava uma vida normal. Trabalhava, namorava e planejava estudar direito. Em outubro, porém, seu mundo sofreu uma reviravolta. Ela começou a perder a voz e a sentir tontura e cansaço intensos. Após alguns exames, veio o diagnóstico: esclerose múltipla. “Fiquei chocada. Me perguntava como seria minha vida dali por diante”, conta ela. A primeira perda foi o emprego (se demitiu). Depois, o namorado. Hoje Ingrid se dedica ao tratamento. Faz fisioterapia e toma injeções regularmente. Mas não pode se emocionar muito. “Se fico triste ou muito alegre, não me sinto bem”, lamenta. Ainda assim ela se alegra em pensar que as células embrionárias poderão lhe trazer novas possibilidades: “É a esperança de uma vida normal, sem limites.”
CLEIBY TREVISAN/AG. ISTOÉ

MARCOS BRANDÃO/CPDOC JB/FOLHA IMAGEM
PRESSÃO Grupo contra o uso de embriões protestou em frente ao STF

Agora, a situação é totalmente diferente. A permissão definitiva serviu como uma injeção de ânimo nos laboratórios. “Isso muda tudo. Vamos buscar investimentos para contratar mais profissionais e ampliar os estudos”, afirma Rehen. Em Brasília para acompanhar a votação do STF, a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo, uma das mais atuantes pela liberação dos estudos, estava emocionada: “Temos uma enorme responsabilidade pela frente. Vamos lutar para que os pacientes possam ter as mesmas condições de saúde que o restante da população.” Em São Paulo, a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira comemorou. Ela, que também lutou pela aprovação da lei, vem trabalhando para estabelecer linhagens de embrionárias aqui no Brasil: “Dessa forma, teremos mais autonomia e não dependeremos de outros países.” Animada com as novas perspectivas, Lygia planeja conseguir produzir as células e, depois, testar sua eficácia no tratamento de várias doenças. “Estou convencida de que nos próximos dois anos começarão os testes em seres humanos de terapias formuladas com células extraídas de embriões. Precisamos estar preparados para isso”, diz ela.

No mundo, crescem as pesquisas para avaliar o potencial das embrionárias. Espera-se para este ano, por exemplo, o início do primeiro experimento em seres humanos de um desses tratamentos. Ele deverá ser realizado nos Estados Unidos, sob a coordenação de cientistas da Universidade da Califórnia. Eles querem saber se células criadas a partir dessas estruturas são eficientes para tratar lesões medulares, substituindo aquelas que foram atingidas. Em cobaias, a resposta foi positiva.


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4/6/2008


 
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