TRAIÇÃO DE PAULO EGYDIO
No livro, Maluf se coloca com um político “ignorado” pelo próprio partido, a Arena, legenda criada pelo governo militar para representar o sistema dos generais e ao qual foi filiado até sua extinção. Ele conta que em 1974, depois de ter sido prefeito nomeado de São Paulo e quando finalizava sua gestão à frente da Secretaria Estadual de Transportes, queria ser candidato da Arena ao Senado, tinha apoio de prefeitos e de delegados do partido no interior. Mas no início do ano recebeu a informação de que os militares já tinham definido a eleição. O futuro presidente da República seria o general Ernesto Geisel, o futuro governador de São Paulo seria Paulo Egydio Martins e para disputar a vaga no Senado pela Arena o candidato seria Carvalho Pinto. Maluf, então, foi a Brasília para conversar com Geisel. Segundo o deputado, o diálogo foi breve:
– General, o senhor quer ganhar a eleição ou quer que Carvalho Pinto seja o candidato ao Senado?
– Como assim? Nas pesquisas que temos o Carvalho Pinto é o preferido para o Senado.
– Não ganha, general. As pessoas querem renovação. Maluf relata que dias depois desse breve encontro, em março de 1974, foi convidado por Paulo Egydio para uma reunião em Campos do Jordão. Maluf foi de helicóptero e levou consigo o senador José Sarney. Queria uma testemunha, testemunha, mas Paulo Egydio pediu que a conversa fosse reservada.
– Apóie o Carvalho Pinto e você continua trabalhando comigo. Em que área você se sentiria confortável?, quis saber o futuro governador.
– Gosto das coisas que estou fazendo. Se eu puder continuar como secretário dos Transportes, melhor, respondeu. Maluf desistiu da sua candidatura e mergulhou na campanha de Carvalho Pinto, que perdeu a eleição para Orestes Quércia, do MDB. Dias depois, Maluf foi chamado à casa de Paulo Egydio. Segundo o deputado, na conversa regada a uísque, o governador lhe ofereceu um cargo em uma empresa que na prática não existia. “Não estou procurando emprego e muito menos salário. Emprego e salário tenho como diretor da Eucatex. O que eu almejava era um cargo onde pudesse construir alguma coisa”, disse Maluf.
BRIGA COM A MÃE
Durante toda a narrativa, Maluf demonstra enorme apreço à família. Relembra a trajetória dos pais e descreve em detalhes os almoços de domingo. Diz, por exemplo, que mesmo já como governador não ocupava a cabeceira da mesa, lugar que era reservado ao irmão mais velho, Roberto, principal responsável por conduzir as empresas da família. “Essa é a postura de respeito a meus pais”, conta Maluf. Mas uma história sem testemunhas que possam confirmá-la revela pelo menos uma áspera conversa com a mãe. Maluf diz que logo que assumiu a prefeitura em 1969 recebeu um pedido de dona Maria Estéfano, por telefone.
– Você pode me fazer um ato de caridade?, perguntou Maria Estéfano.
– Pois não, mãe, respondeu o então prefeito.
– É para o Jorginho (pessoa que prestara serviço na casa dos Maluf). Ele tem seis filhos, está passando necessidade e queria uma banca no Mercado Municipal.
– Avisa ao Jorginho que ele nunca terá uma banca no Mercado, porque lá só se é admitido por concurso. E mais, se souberem que indo à sua casa podem conseguir uma banca no Mercado, farão fila em sua porta. Quem fizer um pedido por seu intermédio jamais será atendido. Segundo o deputado, a mãe não ficou satisfeita com o que ouviu e só depois de algumas semanas as relações voltaram ao normal. “Fiz isso apenas para preservá-la”, diz. Maria Estéfano morreu em 1989 e no livro Maluf não revela o nome completo de Jorginho.
INÍCIO INESPERADO
Paulo Maluf foi nomeado pelo general Costa e Silva presidente da Caixa Econômica Federal em 1967, quando tinha 35 anos. Era um cargo de confiança do regime militar, mas no livro o deputado procura demonstrar que a nomeação não representava um alinhamento automático com a ditadura. Ele argumenta que não era o escolhido pelo general presidente e que só foi nomeado em razão de um deslize infantil do rival. Na época, Maluf contava apenas com a simpatia de Delfim Netto, futuro ministro da Fazenda, a quem conhecera na Associação Comercial de São Paulo.
O que estava acertado pelo presidente é que a CEF seria comandada por Antônio Ribeiro de Andrade. Segundo os relatos de Maluf, às vésperas da posse, Andrade acompanhava Costa e Silva num fim de semana em Petrópolis. No sábado à tarde, um repórter solicitou uma entrevista com o presidente, que se recusou a falar. Andrade foi conversar com o repórter e disse que o presidente estava empenhado em finalizar os planos de governo. O repórter, então, perguntou o que fariam à noite. Andrade respondeu descontraído: “À noite vamos jogar pôquer.” A informação ganhou destaque no jornal do dia seguinte. Costa e Silva ficou furioso. Andrade perdeu o cargo e para presidir a Caixa prevaleceu a indicação de Delfim.
Dois anos depois, novamente com o apoio de Delfim, Maluf foi nomeado prefeito de São Paulo pelo governador Abreu Sodré. Mais uma vez, conta Maluf, não era ele o candidato preferido dos militares. Até dezembro de 1968, Sodré trabalhava pela indicação de seu secretário da Fazenda, Luiz Arrobas Martins. Mas durante uma reunião na sede do governo paulista Martins fez críticas ao poder central. O conteúdo da reunião chegou a Brasília e o governador precisou trocar de candidato. Maluf se tornou a única opção viável.
INFÂNCIA RICA
Em seus relatos, o ex-governador faz questão de dizer que nasceu em berço abastado. Conta do prazer de morar em uma ampla residência num dos bairros mais nobres de São Paulo – aliás a casa onde reside até hoje. Descreve as ruas tranqüilas da região, onde brincava com os filhos do empresário José Ermírio de Moraes e não deixa de citar o Colégio São Luiz, comandado por padres jesuítas e na época um dos mais caros do Brasil. “A influência da Igreja foi muito grande em minha vida. Aos 11 anos tinha a convicção de que seria padre”, afirma.

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