Na Casa Civil, até quem não participou do processo de produção do que o governo convencionou chamar de “banco de dados” vê com naturalidade o fato de a orientação ter partido da secretáriaexecutiva da Pasta. Nascida na capital federal, Erenice – advogada formada pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (Ceub), com especialização nas universidades de São Paulo (USP) e de Brasília (UnB) – sempre teve carta branca de Dilma para se movimentar e agir livremente, mesmo sobre questões administrativas mais delicadas. Segundo assessores da Casa Civil, a advogada de 49 anos, na ausência de Dilma, comanda a Casa Civil com mão de ferro. Não raro, aos berros. Durona e enérgica, características comuns a Dilma no estilo de comandar, Erenice não costuma se deixar intimidar nem por figuras de proa do governo Lula.
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PRESTÍGIO
Erenice recebe cerca de R$ 30 mil mensais. O salário de funcionários como ela é de R$ 12,7 mil |
Ministros como Luis Dulci, da Secretaria- Geral da Presidência, e Franklin Martins, da Comunicação Social, já teriam experimentado a ira da mãe do dossiê.
Uma demonstração de que Erenice é uma fortaleza na Casa Civil é a quantidade de tarefas que Dilma sempre delegou à subordinada. Em 2007, ela foi escalada por Dilma para fiscalizar com lupa a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), cujo orçamento anual supera R$ 1,5 bilhão, depois que a Controladoria- Geral da União encontrou diversas irregularidades no órgão. No ano passado, Erenice nomeou seu irmão Antônio Eudacy Alves Carvalho para um cargo na Infraero de Salvador. Eudacy, no entanto, acabou exonerado em agosto do mesmo ano pelo atual presidente da empresa, Sérgio Gaudenzi, depois que a imprensa publicou uma série de reportagens sobre o cabide de empregos em que a Infraero se transformara. No final de 2007, Erenice voltou a dar demonstrações de sua força: vetou uma indicação do ministro das Comunicações, Hélio Costa, para conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações. Costa ficou uma fera. Não conseguiu, no entanto, emplacar o afilhado político Jarbas Valente.
Também foi ela quem convenceu os controladores de vôo a suspender o motim de março do ano passado. Junto com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, Erenice chegou por volta das 23h ao Cindacta 1, em Brasília, e começou a negociar com os grevistas. Mostrou pulso. “Estamos cansados de promessas. Nossos anseios estão engavetados. Não houve nada de concreto até hoje”, reclamou um dos líderes dos controladores. “Nós nunca viemos aqui antes para prometer absolutamente nada para vocês. Então, para essa relação ficar qualificada, não pode partir dessa premissa”, rebateu Erenice.
Dilma se encantou com Erenice no governo de transição, quando a advogada foi chamada para integrar a equipe do futuro governo Lula e impressionou pelos conhecimentos sobre o setor energético adquiridos na Eletronorte, quando ocupou cargos de gerência de 1981 a 1994. No Ministério de Minas e Energia, Erenice foi o braço direito de Dilma na formulação do novo modelo do setor. Em uma reunião com assessores, Dilma chegou a dizer que Erenice era um modelo de profissional. “Gosto de trabalhar com gente competente como Erenice”, disse Dilma.
Já à frente da Casa Civil, Dilma incumbiu Erenice de monitorar setores importantes do governo. A advogada foi nomeada para os conselhos da Petrobras, da Eletronorte e da Companhia Hidrelétrica do São Francisco. Este ano saiu da Petrobras, mas ganhou uma cadeira no conselho do BNDES. Somando todas as funções, Erenice recebe cerca de R$ 30 mil mensais. O salário mensal dos secretários-executivos, como Erenice, é de R$ 12,7 mil. Além disso, ela ganha cerca de R$ 4,5 mil de cada conselho que integra. São os chamados jetons. Ainda em 2006, por “relevantes serviços prestados ao governo”, Erenice foi condecorada com a medalha do Mérito Mauá, concedida pelo Ministério dos Transportes.
Mãe de duas filhas, Erenice mora na Asa Sul. Católica, freqüenta as missas da Igreja São Paulo Apóstolo. A exemplo da chefe, também não descuida da aparência. Foi ela, inclusive, quem indicou o salão de beleza Metamorphose, do qual Dilma se tornou habitué. Na Casa Civil, costuma usar vestidos escuros, não raro pretos, e bem comportados. Mas abusa da extravagância ao usar chapéus e boinas nos eventos palacianos. No quarto andar do Palácio do Planalto ninguém ousa fazer reparos à maneira de Erenice se vestir. Atualmente, no entanto, há quem não se acanhe em dizer que a segunda mulher da Casa Civil avançou o sinal ao produzir um dossiê sobre gastos sigilosos do antecessor do presidente Lula.
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A ORDEM
Em 8 de fevereiro, Erenice Guerra convoca reunião em seu gabinete e determina a montagem de uma lista com gastos que pudessem constranger o ex-presidente FHC e dona Ruth |
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A EDIÇÃO
Em 11 de fevereiro, alguns dados sigilosos são pinçados de um banco de dados e separados em arquivo paralelo, numa planilha Excel. É o arquivo que a oposição chama de dossiê |
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A REVELAÇÃO
Depois de a PF começar a investigar o caso, José Aparecido Nunes Pires revela ao assessor parlamentar André Fernandes que Erenice comandou a elaboração do dossiê |
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NA CPI
Com uma decisão judicial que lhe permite se calar e até mentir, José Aparecido se recusa a contar tudo o que sabe aos parlamentares, mas será denunciado pela PF |
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