No início de fevereiro, o Palácio do Planalto vivia momentos de extrema tensão. A iminente CPI dos gastos com cartões corporativos rondava o governo Lula e poderia nocautear diversos ministros, além de criar situações constrangedoras ao próprio presidente. Era preciso reagir. Foi nesse contexto que começou a gestação de uma relação com os gastos sigilosos do expresidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso. A mãe dessa lista, mais tarde chamada de dossiê, é Erenice Alves Guerra, secretária-executiva da Casa Civil e fiel escudeira da ministra Dilma Rousseff. Na ensolarada manhã da sexta-feira 8 de fevereiro, Erenice convocou quatro pessoas para uma reunião de emergência em seu gabinete: o secretário de Administração, Norberto Temóteo Queiroz, o ex-secretário de Controle Interno José Aparecido Nunes Pires, a chefe de gabinete de Erenice, Maria de La Soledad Castillo, conhecida como Marisol, e o responsável pela Diretoria de Orçamento e Finanças, Gilton Saback Maltez. Num tom enérgico que faz jus ao sobrenome que carrega, Erenice começou a reunião com uma frase que lhe é característica. “Isto é uma ordem”, afirmou. Em seguida, explicou que a missão prioritária daquele grupo seria a de fuçar, esmiuçar e compilar gastos com cartões corporativos desde 1998 (ano em que FHC se elegeu para o segundo mandato), de preferência aqueles que pudessem vir a constranger o ex-presidente e dona Ruth, caso se tornassem públicos. Nenhum dos presentes fez qualquer questionamento e a reunião foi encerrada da mesma forma como começou: “Isto é uma ordem.”
Na segunda-feira seguinte, 11 de fevereiro, os dados solicitados por Erenice começaram a ser organizados e filtrados na Diretoria de Logística (Dilog). A maior parte do material foi utilizada para a formação do que a ministra Dilma posteriormente chamaria de “banco de dados” sobre os gastos com cartões e aqueles considerados sigilosos. Uma outra parte, escolhida a dedo, segundo os critérios ditados por Erenice na reunião de 8 de fevereiro, era copiada e a cópia preenchia um outro arquivo paralelo de uma planilha Excel. Foi esse arquivo paralelo que em 20 de fevereiro deixou o computador de José Aparecido na Casa Civil e aportou na caixa postal eletrônica de André Fernandes, assessor parlamentar do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), um dos mais eloqüentes defensores de uma CPI para investigar os gastos com os cartões corporativos do governo Lula.
Como fora planejado por Erenice, os gastos que em tese poderiam constranger o primeiro- casal do governo anterior acabaram se tornando públicos. Mas a fiel escudeira da ministra Dilma perdeu o controle da situação quando a Polícia Federal se instalou no interior da Casa Civil para realizar uma investigação sobre o vazamento de dados sigilosos. Sob o comando do ministro da Justiça, Tarso Genro, que não reza pela mesma cartilha de Dilma, a PF não poupou ninguém e agiu mais rápido do que de costume.
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“Não vou assumir nada. Quem estava fazendo era a Erenice”
José Aparecido para André |
“Você precisa dizer que fez tudo e assumir a responsabilidade por isso”
André para José Aparecido |
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FORÇA POLÍTICA
Braço direito de Dilma, Erenice Guerra vetou nomeação de um afilhado do ministro Hélio Costa |
O assessor parlamentar André e o ex-secretário de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido são velhos conhecidos, embora não mantenham relação de profunda amizade. Ambos ficaram preocupados com os rumos tomados pela investigação da PF, que identificou não só o computador de onde os dados saíram como também o equipamento a que foram remetidos. Na segunda- feira 24 de março, os dois marcaram um almoço no pequeno restaurante do Clube Naval de Brasília. José Aparecido sabia que o seu indiciamento pela Polícia Federal seria uma questão de tempo. André lhe sugeriu, então, que assumisse toda a responsabilidade pelo vazamento. “Você precisa dizer que fez tudo e assumir a responsabilidade por isso”, disse André. “Você está louco? Não vou assumir nada. Até porque quem estava fazendo era a Erenice”, respondeu José Aparecido. Dias depois, ele soube que André havia usado o telefone celular para gravar a conversa que tiveram no restaurante. Na semana passada, em depoimento prestado na CPI, José Aparecido estava munido de uma decisão judicial que lhe assegurava o direito de não responder o que lhe fosse perguntado e até de mentir. Mesmo assim, estava disposto a contar como Erenice comandou a elaboração do dossiê. Mas, como André, que prestou depoimento horas antes, não apresentou a gravação, preferiu poupar a ex-chefe. Não detalhou nem a reunião do dia 8 de fevereiro nem o conteúdo da conversa no restaurante do Clube Naval. André, porém, foi enfático ao dizer que teve de José Aparecido a informação de que foi mesmo Erenice a mãe do dossiê.
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