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A maldição de Collor
Por que, em uma sina surpreendente, todos os que se envolveram com o ex-presidente enfrentaram grandes reveses em suas vidas, e alguns até destinos trágicos

RUDOLFO LAGO

O outro principal denunciante do esquema, Francisco Eriberto França, tem sofrido problemas com os quais ele não contava quando resolveu dizer o que sabia. Eriberto era motorista da Presidência e resolveu contar à ISTOÉ que muitas vezes era encarregado de pegar dinheiro de propinas no escritório de Collor e do ex-piloto de seu avião a jato, conhecido por Morcego Negro, Jorge Bandeira de Mello. Embora não esperasse necessariamente recompensas, Eriberto sonhava com algum reconhecimento. Chegou a tentar a vida política. Fracassou. Depois de pular por vários empregos, chegou ao fundo do poço, vivendo por alguns anos como guardador de carros nas ruas, quando não chegava a tirar R$ 300 por mês. Hoje, vive com um salário de R$ 1,8 mil como auxiliar de produção na Radiobrás, TV estatal do governo. Eriberto não fala diretamente sobre uma possível maldição, mas uma das suas maiores rotinas é reclamar da falta de sorte. “Às vezes, bate um certo arrependimento”, confessa. “Esperava um pouco mais dos políticos que me incentivaram a contar o que eu sabia”, considera.

Pivô do escândalo que culminou com o impeachment, PC Farias nunca rompeu publicamente com Collor. Mas os dois afastaram-se após a deposição do ex-presidente. PC chegou a fugir do País para não ser preso. Falase na existência de dinheiro que PC arrecadou e nunca apareceu. De qualquer modo, em 1996, Paulo César Farias foi assassinado em sua casa na praia de Guaxuma, ao lado de sua namorada, Suzana Marcolino. No campo das mortes trágicas, há ainda a do deputado Ulysses Guimarães, que, com seu prestígio, ajudou a sepultar as chances de Collor ao cunhar uma frase histórica pouco antes da votação que aprovou na Câmara o início do processo de impeachment. Collor o havia chamado de senil. “Sou velho, mas não sou velhaco”, respondeu Ulysses. O Senhor Diretas e Senhor Constituinte não chegou sequer a assistir à deposição de Collor. Em outubro de 1992, um helicóptero que transportava Ulysses caiu no mar próximo de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O deputado desapareceu e seu corpo jamais foi encontrado.

Os políticos envolvidos com o impeachment, procurados por ISTOÉ, evitaram falar em maldição, até por não quererem admitir publicamente que passaram ou passam por maus momentos. Ibsen Pinheiro, que presidia a Câmara, foi cassado dois anos depois, envolvido no escândalo dos anões do Orçamento. Benito Gama e Amir Lando, respectivamente presidente e relator da CPI do PC, estão hoje no ostracismo político, recolhidos aos seus Estados de origem, Bahia e Rondônia, por não conseguirem mais se reeleger. Duas ex-estrelas petistas de primeira grandeza, José Dirceu e José Genoino, que como deputados foram implacáveis na denúncia de Collor, cairiam em desgraça no primeiro mandato do presidente Lula, abatidos pelo escândalo do mensalão. Dirceu teve inclusive seu mandato de deputado cassado, mas Genoino voltou à Câmara em 2006, embora como pálida sombra do grande articulador que foi no passado. A vítima mais recente foi o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Na era collorida, Renan era o líder do governo na Câmara. Depois que estourou o escândalo, acabou rompendo com o ex-presidente e, numa entrevista, confirmou a existência do esquema. Durante um bom tempo, ele parecia ter escapado da maldição. Virou ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso e presidente do Senado na era Lula. Quando tudo parecia lhe sorrir, justamente no momento em que Collor elege-se senador, aparece a história de que ele tivera uma relação extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso e que, dessa relação, nascera uma filha. Da briga por pensão, surgiram denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito. Para escapar da cassação, que parecia iminente, Renan renunciou à presidência do Senado.


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28/5/2008


 
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