Por que, então, a renda “compra felicidade” na concepção dos mais ricos e mais pobres e não dos que estão na posição intermediária, na classe média? A riqueza é um bom negócio para aqueles que têm carências elementares (como saúde, moradia e alimentação) porque, como metaforiza o economista Eduardo Giannetti, professor de história do pensamento econômico do Ibmec São Paulo, o copo de leite que essa pessoa toma todo dia pela manhã lhe dá enorme satisfação, que não será alterada pelo fato de outros desfrutarem do mesmo prazer. Ela se sente realizada se a renda permitir suprir essa necessidade de alimento, por exemplo.
Outra explicação para a alta satisfação entre os mais pobres é, diz Fagundes, da Catho, o fato de o volume de contratações de pessoas que fazem parte da classe baixa ter crescido 60%, entre 2003 e 2007. “O nordestino é o povo mais feliz, por exemplo, porque o Nordeste tem registrado um crescimento econômico muito grande”, afirma Fagundes. “Com mais empregos e mais salários e a ajuda de programas assistenciais como o Bolsa Família, observamos uma explosão nos padrões de consumo, fato inédito na região.”
Já no Sudeste, uma das explicações que o colocam como a única região brasileira abaixo da média de felicidade é a maior concentração de profissionais que ganham entre 5 e 15 salários mínimos, de acordo com a pesquisa da Catho. Trata-se da classe média, que paga escola, plano de saúde, prestação do carro, muito imposto e não consegue guardar dinheiro. Nesse patamar, o indivíduo já suplantou o degrau das necessidades básicas e tende, a partir de um certo nível de renda, a se preocupar muito mais com a sua posição relativa (dá mais valor à comparação de sua riqueza com a de outros) do que com seus ganhos absolutos.

Para o cidadão da classe média, adquirir um Rolls-Royce depois de anos de trabalho a fio deixa de ter valor se, no dia seguinte à compra, ele se deparar com carros idênticos nas ruas. Sua felicidade, então, estará sempre em um bem ao qual não tem acesso. “É por causa dessa corrida armamentista do consumo que as proporções entre felizes e infelizes não se alteram, embora a renda média por habitante cresça com o passar do tempo”, explica Giannetti. Uma das maiores autoridades nacionais quando o assunto é a relação entre renda e felicidade, ele completa: “E é por isso que, entre os mais ricos, os vitoriosos nessa corrida, há uma proporção maior dos que se declaram felizes.”
O mesmo quadro é verificado nos Estados Unidos. Pesquisas mostram que dinheiro traz felicidade para os americanos que ganham anualmente até US$ 20 mil e acima de US$ 80 mil, em média. E, no hiato desses rendimentos, o bem-estar das pessoas não se modifica. Entre os britânicos – que estão mais ricos, saudáveis e vivem mais, segundo uma pesquisa divulgada no mês passado pelo Escritório para Estatísticas Nacionais (ONS) – o índice de satisfação caiu nos últimos 30 anos.
Dados do instituto americano Gallup Word Poll, porém, colocam o Brasil como um país feliz. Mais: está entre os 25 mais felizes do mundo e acima dos outros três países que formam os BRICs – Rússia, Índia e China. A pesquisa mediu, em 2007, o índice de felicidade em relação à vida em 132 países. O Brasil é considerado um emergente no quesito felicidade, cujo nível é o mais alto da América Latina e está acima, por exemplo, dos países do Leste Europeu.
INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS AGRADAM FUNCIONÁRIOS
Formada em administração de empresas, Fabíola de Queiroz Costa, 30 anos, trabalha desde 2006, em São Paulo, os quadros do fundo de investimentos Victoire Finance Capital, onde recebe salário de R$ 3.500 e bônus semestrais de R$ 8 mil. “Sou feliz em trabalhar com aquilo para o qual estudei, gosto da dinâmica da minha rotina e principalmente de poder aprender cada dia mais com a minha profissão”, diz ela. Carreiras em instituições financeiras estão entre as que dão mais satisfação, segundo a pesquisa

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