Detectar e classificar os personagens que aparecem no sonho é o primeiro passo da interpretação. Reconhecer o sábio, os aliados, a cara-metade do sexo oposto, o mensageiro, o rival e seus comparsas torna possível a compreensão das atitudes de cada um deles. Pode ser mais difícil do que parece, pois não necessariamente todo sonho será povoado por todos esses arquétipos – que também podem estar representados por símbolos abstratos, em vez de pessoas. Mapeado quem é quem na história, devem-se analisar o enredo em si e suas particularidades (tempo, espaço, situações), para desvendar a aventura proposta e os meios de realizá- la. A jornada do herói é bem-sucedida quando ele conquista seu objetivo e, mais do que isso, acumula conhecimentos valorosos para melhorar a própria vida e a dos que estão à sua volta.
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“Interpretar corretamente o próprio sonho ajuda a perceber com o que estamos insatisfeitos para fazer pequenos ajustes ou iniciar grandes transformações pessoais”, diz Kwasinski, que tem mais de três mil sonhos pessoais anotados desde 1983, classificados por épocas e temas, aos quais ele recorre em busca de explicações para o próprio comportamento cotidiano – o pai da psicanálise, Sigmund Freud, definiu o sonho como o caminho real para o inconsciente em uma de suas mais célebres afirmações. “De tempos em tempos, temos sonhos maravilhosos, como as obras-primas de grandes artistas, que nos trazem revelações surpreendentes. Decifrá-los é o caminho para compreendermos melhor nossos desejos e a nós mesmos”, completa o professor.
Manter um diário é fundamental para uma análise profunda de seus significados. O hábito permite traçar um panorama dos sonhos mais recorrentes ao longo da vida para tentar entender a mensagem contida neles, assim como identificar os verdadeiros temores por trás dos grandes pesadelos. Para tanto, o sonho deve ser anotado assim que se acorda. Um despertar tranqüilo ajuda a lembrar de detalhes e pessoas envolvidas. “Todo mundo sonha. Mas aquelas pessoas que acordam com o barulho de um despertador e saem correndo da cama para tomar um banho ou preparar o café da manhã inibem a liberação de noradrenalina, que são neurotransmissores auxiliares da manutenção da memória. Como a noradrenalina não é liberada durante o sono, é importante dar um tempo para que isso ocorra nos primeiros momentos desperto”, diz Ribeiro. O neurocientista recomenda também que uma auto-sugestão seja feita antes de dormir – ou seja, cada um deve reafirmar para si mesmo o desejo de sonhar durante o sono.
Desde que o homem existe, os sonhos são cercados de mistérios. Para os povos antigos, eles carregavam algo de sobrenatural. Eram vistos como um meio de a pessoa receber orientações e mensagens do além, tanto das divindades quanto dos mortos. Os egípcios e gregos, por exemplo, pensavam ser possível estabelecer contato com os deuses. E, assim como os espíritas de hoje em dia – que acreditam na possibilidade de interação com almas desencarnadas enquanto dormimos –, os chineses estavam certos da possibilidade de encontrar os mortos. Cada povo, cultura e tradição lida com o sonho de um modo particular. Há os que não dão a mínima para o assunto. E há também aqueles que se dedicam a interpretálos, numa tentativa de se tornar indivíduos melhores e de viver com mais segurança. É o caso da tribo senoi, na Malásia. Lá, sempre que acordavam, as crianças costumavam relatar seus sonhos aos pais. Recebiam conselhos e suas mensagens eram vistas como dicas importantes para a rotina diária da aldeia. Era a partir das experiências dos pequenos e do que aquilo simbolizava para a tribo que decisões, como época de plantar e colher, eram tomadas.
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SAGRADO Na Bíblia, há mais de 700 referências a sonhos e visões. Uma das mais famosas é com José carpinteiro |
O candomblé também incentiva seus seguidores a interpretar os sonhos, numa tentativa de se blindar de problemas. “Sonhar com um banho de mar pode indicar que a pessoa está ‘carregada’ espiritualmente”, atesta o líder espiritual e presidente do Centro Cultural Africano, em São Paulo, Atunba Adekunle Aderonmu. “Ao acordar ela deve se purificar, participando de um ritual de limpeza ou tomando banho de sal grosso”, diz ele. O candomblé conta que entidades como Ogum, Oxum e Iansã costumavam ter sonhos premonitórios. É por isso que a aceitação dessas mensagens pelos afro-brasileiros têm tanta força.
“O sonho é muito importante para todas as culturas ancestrais. No mundo ocidental, ainda se dá pouca atenção a ele. É importante conciliar a vigília (quando estamos acordados) com a vida onírica”, defende Ribeiro. O neurocientista diz prestar ainda mais atenção em seus sonhos quando se vê pressionado por alguma situação extrema, no trabalho ou na vida pessoal. Uma atitude parecida com a desempenhada por seguidores do budismo tibetano, que usam os sonhos para entender os momentos de vida em que se encontram. “É comum os lamas pedirem às pessoas com quem convivem para que elas lhe relatem seus sonhos. Eles possuem seus próprios símbolos e buscam mensagens”, resume Arnaldo Bassoli, psicoterapeuta e presidente do Comitê Brasileiro de Apoio ao Tibete no Brasil. Através da ioga dos sonhos, prática voltada para budistas avançados, a pessoa desenvolve a habilidade de se manter consciente nesses momentos. “Isso não significa que haja uma preocupação em interpretar os sonhos. A ioga prega a consciência plena mesmo ao dormir, para que a pessoa esteja sempre desperta, com a mente limpa, livre de distorções”, diz Bassoli.
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