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O que dizem os sonhos
Como a psicologia, a neurociência e as religiões analisam as mensagens que vêm à tona durante o sono e por que interpretá-las corretamente é fundamental para melhorar a sua vida

CLAUDIA JORDÃO E JONAS FURTADO

RELAXAMENTO Um despertar tranqüilo ajuda a fixar na memória o que foi sonhado à noite

A jovem sonha que está sendo atacada por uma cobra em um sítio. Ao tentar se desvencilhar do animal, percebe que está cercada por outras serpentes. A maior delas não demora para se enrolar em sua cintura, deixando-a totalmente imobilizada e impotente. Assustada, a garota acorda e se pergunta, intrigada: que mensagem estaria por trás daquela experiência onírica? Sonhos podem ser interpretados de muitas maneiras, dentro das mais variadas crenças, culturas, filosofias, religiões e linhas científicas. Mas ninguém estudou tão profundamente o assunto quanto o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Para desvendar os mistérios do sono, ele recorria aos símbolos universais do que chamou de inconsciente coletivo. Uma cobra, por exemplo, pode significar morte, cura ou transformação. Médicos neurologistas defendem que as imagens que povoam a mente das pessoas durante o sono são, muitas vezes, resultado de percepções e de memórias antigas que vêm à tona e se encaixam. Isso explicaria os sonhos que parecem trazer soluções para a vida real, como a história do físico alemão Albert Einstein, que concluiu a Teoria da Relatividade depois de um cochilo.

O sonho relatado na página 56 tornou- se exercício de interpretação da primeira turma do curso Os Sonhos e a Jornada do Herói, aberto no mês passado pela Coordenadoria-Geral de Especialização (Cogeae) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Organizada pelo psicólogo e professor de mitologia Guilherme Kwasinski, a disciplina propõe a análise dos sonhos a partir da classificação de arquétipos idealizada por Jung e referendada pelo mitólogo Joseph Campbell no clássico O herói das mil faces (leia quadro à pág. 61). “Há muitos paralelos entre os dois estudos. Campbell dizia que o mito é o sonho coletivo, enquanto o sonho é o mito pessoal de cada indivíduo”, cita Kwasinski. Com inscrições disponíveis para o público em geral, todas as 25 vagas foram esgotadas – havia ainda fila de espera. Devido ao sucesso, as aulas serão oferecidas novamente no segundo semestre e são grandes as chances de ganharem cadeira cativa no portfólio de cursos de extensão da universidade.

OSCAR BURRIEL/SPL/LATIN STOCK
VIAGEM Os espíritas acreditam que, em alguns sonhos, a alma da pessoa desencarne e “viva” situações fora de seu corpo

“Nós nos iludimos no dia-a-dia, trabalhamos com o que e com quem não gostamos, temos que nos enquadrar nos padrões da sociedade. Os sonhos ajudam a mostrar quem somos na essência, são um caminho para o autoconhecimento, para a nossa verdade mais profunda”, afirma Kwasinski. Segundo os métodos do curso, o herói, personagem principal do sonho, é sempre a pessoa que está sonhando e a experiência onírica é dividida em três partes. Para começar, apresenta-se um ambiente e uma situação, como nas primeiras imagens de um filme. A seguir, desenvolve-se um enredo, o vilão (chamado de sombra) se manifesta, os personagens definem seu papel na história (como os arquétipos de Jung e Campbell) e o herói inicia um caminho de conflitos, provações – e cheio de pistas. Na última seção, acontece o grand finale: respostas são oferecidas e a trama é concluída. A psicóloga suíça Marie-Louise von Fraz, uma das maiores colaboradoras e defensoras das idéias de Jung, dizia que a última frase de um sonho merece uma atenção especial, pois é na interpretação dela que reside a chave para a solução do enigma. “O sonho é uma simulação do futuro possível com base no passado conhecido”, resume Sidarta Ribeiro, neurocientista e diretor científico do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra, em Natal, Rio Grande do Norte.


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16/5/2008


 
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