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| REENCONTRO Lucas e Spielberg levaram 15 anos para dar um ponto final no enredo do quarto Indiana Jones. |
Passada em 1957, em plena Guerra Fria, que opôs o países capitalistas e comunistas (respectivamente capitaneados pelos EUA e pela extinta União Soviética), a trama mostra Indiana Jones numa expedição particular ao Peru em busca da tal peça sumida. Não se trata de uma relíquia qualquer: o objeto sagrado pertence ao reino de Akator (referência ao reino subterrâneo de Akakor, que teria existido na fronteira entre o Brasil e o Peru) e guarda poderes desconhecidos que podem levar um povo a dominar o planeta. Os russos, por exemplo, e seu batalhão de homens de verde. À frente deles está a bela e fria oficial Irina Spalko, cujo papel ficou a cargo de Cate Blanchett. Spielberg quis que Cate tivesse ares da estrela alemã Marlene Dietrich, famosa por interpretar espiãs nos anos 30. Do outro lado do confronto, está Indiana e ele ganhou um amigo bem mais jovem, o “rebelde sem causa” Mutt Williams, interpretado por Shia LaBeouf. Spielberg pediu que o ator assistisse aos filmes Juventude transviada (com James Dean) e O selvagem (com Marlon Brando) para que entrasse no clima de seu personagem. LaBeouf não economizou na brilhantina do topete empinado. Algo pode parecer errado para os saudosistas que esperam ver na tela um personagem estacionado no tempo no que diz respeito a sua idade – ou seja, esperam pelo Indiana Jones jovem das três aventuras anteriores. É justamente aí que está um dos golpes de mestre de Lucas e Spielberg: eles envelheceram 20 anos o personagem para, dessa forma, poderem manter o galã Harrison Ford nesse papel. Tem-se, assim, um Indiana Jones sessentão.

Esse foi, com certeza, um dos fatores que emperraram o projeto desse quarto episódio: ainda que quisesse, Ford não conseguiria encarnar um Indiana com o mesmo vigor de duas décadas atrás. Ele está em forma, mas o tempo é implacável também para os astros e impõe os seus limites. Segundo o ator, que se submeteu a uma dieta de proteínas e a três horas diárias de academia, basta colocar o chapéu de feltro e a jaqueta de couro para o personagem “baixar” novamente. E ele jura ter dispensado dublês em muitas cenas de ação: “No primeiro filme eu rompi um ligamento do joelho, no segundo tive um problema nas costas que me levou à cirurgia em meio às filmagens. Agora, apesar de mais velho, não saí com nenhum machucado.” Há, no entanto, outro motivo para a demora no retorno do herói às telas. Em entrevista à revista americana Vanity Fair, Lucas contou que tanto Spielberg quanto Ford não gostavam da história que ele havia lhes apresentado, ainda em 1993. Nesse ano, Lucas se encontrara com Ford nas filmagens do seriado de tevê O jovem Indiana Jones e veio então a idéia de retomar a saga, desde que estivesse presente nela a tal caveira de cristal. “Sem a caveira, nada de Indiana”, dizia Lucas. Ao longo de 15 anos a história foi sendo desenvolvida por roteiristas do porte de N. Night Shyamalan (O sexto sentido), Frank Darabont (Um sonho de liberdade) e Chris Columbus (Harry Potter e a câmera secreta). Chegou- se enfim a um acordo (caveira mantida) justamente com a versão que envelhecia o herói. “O personagem batia com a minha idade, vivia um outro momento histórico e o que li era um grande roteiro. Então respondi: legal, vamos fazer mais um”, disse Ford. Com esses ajusajustes, outras novidades foram sendo incorporadas. A primeira delas é que, com a ação no período da Guerra Fria, a referência cinematográfica não deveria mais ser os matinês dos anos 30: a trama tem agora um jeitão de ficção científica série B. Não faltam, é claro, as impagáveis cenas de areia movediça, típicas dessas produções mais baratas.
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| VILÃ Cate Blanchett interpreta a militar Irina Spalko, em raro papel de ação |
Sempre perfeccionista, Spielberg mandou o fotógrafo Janusz Kaminski “estudar” todos os títulos anteriores filmados por Douglas Slocombe para que o visual do presente não destoasse demais. Outra operação se deu em relação à reconstituição de cenários, como a Universidade Marshall, onde Indiana Jones dá aula com o nome de Henry Jones. O diretor evitou também o ritmo frenético dos blockbusters atuais porque acredita que o humor e a graça do personagem e das situações que ele vive vêm da tradição da comédia muda de Charles Chaplin e Buster Keaton. “Para conseguir o lado cômico que procuro nos filmes de Indiana, só mesmo sendo fora de moda”, disse Spielberg ao jornal The New York Times. Resta saber, no entanto, se a nova geração, que não teve a felicidade de ver Indiana Jones nos cinemas, vai gostar desse estilo cool e pleno de referências ao passado. Em 1981, quando Lucas e Spielberg revolucionaram os filmes de aventura, eles eram os grandes e terríveis rebeldes em Hollywood – Spielberg tinha 35 anos e ainda não filmara o seu clássico E.T. – o extraterrestre; Lucas contava 37 anos e se consagrava com O império contra-ataca. Hoje, os enfants terribles do cinema americano são os irmãos Wachovski, adeptos de uma estética bem mais alucinante. Mas bastou o trailer do novo Indiana Jones ser colocado no ar para, em cinco dias, ser visto por mais de dois milhões de internautas (o equivalente a 278 acessos por minuto). A julgar por esse número, o velho Indiana Jones ainda tem fôlego para muitas aventuras.
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