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Internacional  
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Ventos em fúria
Arrasada pela passagem de ciclone que pode ter deixado 100 mil mortos, Mianmar agora sofre com a resistência do governo à ajuda internacional

L.V.

KHIN MAUNG WIN/GETTY IMAGES
TRAGÉDIA Templo budista arrasado em Yangun

Primeiro, chegaram os ventos, a 190 quilômetros por hora, destelhando construções, derrubando postes e arrancando árvores. Depois, uma alta súbita da maré afundou embarcações ancoradas no delta do rio Irrawaddy e cobriu a maioria das casas litorâneas no sul de Mianmar, no Sudeste Asiático, na noite da sexta-feira 2. À medida que avançou em direção ao leste do país, o ciclone Nargis ganhou força. Levantada por conta de sua passagem, uma onda gigante deixou vilarejos inteiramente submersos. Quando o Nargis chegou à antiga capital, Yangun, os ventos atingiram 240 quilômetros por hora. Prédios desabaram. Depois de dez horas de intensa tempestade de ventos, a região afetada pela passagem do ciclone, a mais povoada do país, estava com os serviços de infra-estrutura destruídos. Mais de um milhão de desabrigados tentavam sair das áreas alagadas ou perambulavam entre destroços, com fome e sede. “Eu fiquei agarrado ao topo de um coqueiro até as águas baixarem”, disse Phan Maung, da cidade de Labutta. “Não sei o que aconteceu com minha mulher nem com meus filhos.”

A tempestade de ventos só arrefeceu por completo no domingo 4, deixando um assustador rastro de destruição. Semidespidos, sobreviventes da tragédia buscavam ajuda nos grandes centros, onde a comida e a água potável se tornavam cada vez mais escassas. As poucas lojas que permaneceram abertas foram saqueadas. Em um regime no qual a censura à notícia faz parte do cotidiano, as informações sobre a dimensão da tragédia demoraram a circular. Devido ao desabastecimento do sistema de energia e ao colapso da rede de comunicação do país, divulgou- se inicialmente que o número de vítimas da tragédia fosse de 350 pessoas. Cinco dias depois, a estimativa oficial atingia cerca de 22 mil vítimas, mas a diplomata Shari Villarosa, da embaixada americana em Yangun, afirmou em teleconferência ter informes somando mais de 100 mil mortes na área do delta do Irrawaddy. No dia seguinte, a estatística do governo começou a ser alterada. “Agora, nosso balanço estima que já temos 80 mil mortos na região”, disse Tin Win, chefe militar de Labutta, que integra a área do delta.

AFP/GETTY IMAGES
Desabrigados em Labutta

Acredita-se que a maioria das pessoas tenha morrido por causa da onda gigante formada na esteira do ciclone, um fenômeno conhecido como maré de tempestade. “A onda tinha três metros e meio de altura e inundou metade das casas que ficavam próximas à costa, ao nível do mar”, disse o general Maung Maung Swe, ministro da Assistência e Recolocação. “As pessoas não tinham para onde fugir.” Na cidade de Bogalay, que fica 100 quilômetros ao sul de Yangun, 95% das casas foram destruídas. Formado no golfo de Bengala no dia 27 de abril, o Nargis é o primeiro ciclone da temporada de tempestades de vento que costuma ocorrer no oceano Índico todos os anos entre maio e novembro. É o pior registrado na Ásia desde 1991, quando 143 mil pessoas morreram em Bangladesh.

Ainda não dimensionada em sua totalidade, a tragédia ocasionada pelo Nargis deve provocar grande impacto no futuro do país. Por um lado, devastou a região que concentra a produção de arroz, um dos principais sustentáculos da economia de Mianmar. Por outro lado, está colocando em xeque a Junta Militar que governa o país com mão de ferro desde 1962 e reprimiu com violência em setembro passado uma rebelião liderada por monges budistas. Chamada Birmânia antes do regime militar, Mianmar é um dos países mais fechados do mundo. Devido ao cenário desolador e à destruição provocada pelo ciclone, seus governantes pediram ajuda internacional para atender às vítimas, mas estão bloqueando a entrada de trabalhadores humanitários. Agora, começam a ser convocados a abrir suas fronteiras.


14/5/2008


 
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