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Entrevista  
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ANTANAS MOCKUS
''Aqui se mata para roubar ou não ser roubado''
Responsável pela queda drástica da criminalidade em Bogotá, ex-prefeito diz que brasileiros nivelam o valor da vida ao da propriedade e ataca a ação das milícias

Por AZIZ FILHO

AMÉRICO VERMELHO/AG. ISTOÉEx-prefeito de Bogotá, o filósofo e matemático Antanas Mockus, 56 anos, ajuda hoje as Prefeituras de São Paulo, Belo Horizonte e Cidade do México a implantarem seu conceito de “cultura cidadã”. As suas ações como prefeito da capital colombiana são vistas como a principal causa da redução da taxa de 80 mortes por 100 mil habitantes para 23 por 100 mil, em dez anos. Apesar da permanência do estado de guerra civil no país, Bogotá se tornou a cidade mais segura da América do Sul. Em entrevista à ISTOÉ, o exprefeito, que integra o Conselho Latino-Americano sobre Drogas e Democracia, alerta para o “custo altíssimo” que as metrópoles podem pagar pela ilusão de que as milícias são uma boa alternativa ao narcotráfico.

ISTOÉ – A queda da violência em Bogotá tem a ver com a luta antidrogas?
Antanas Mockus –
A violência está mais relacionada com o tráfico do que com o consumo. E o tráfico tem mais a ver com aeroportos e fronteiras, temas nacionais. O fim dos anos 1980 registrou alto índice de crimes motivados pela idéia de fazer justiça com as próprias mãos. Eram traficantes matandose entre si, uma espécie de justiça interna. Houve também debilitação da Justiça, sobretudo nas regiões menos populosas, com paramilitarismo, guerrilha e narcotráfico. A mistura de corrupção e intimidação enfraqueceu a Justiça.

ISTOÉ – E hoje?
Mockus –
Recentemente, um grande processo contra paramilitares deu mais credibilidade à Justiça, mas os crimes comuns continuam sem solução. Setenta por cento da demanda da Justiça está relacionada à violência familiar. Estamos respondendo aos crimes mais graves, não aos mais freqüentes. De qualquer forma, houve fortalecimento de marcos regulatórios, mais consciência sobre o valor da vida e melhoras na solução de homicídios, com a criação de grupos especiais no Ministério Público.

ISTOÉ – Legalizar o consumo de drogas pode ser uma boa iniciativa?
Mockus –
Não se pode pensar nisso antes de um recuo no consumo. Só quando houver o resultado da combinação de consciência pessoal e pressão social, familiar, escolar e dos meios de comunicação é que se poderá pensar em desmontar o último recurso, a sanção legal. Acho que se pode transformar o sistema de sanções, desistindo das penas longas de prisão.

ISTOÉ – Por exemplo...
Mockus –
Acredito mais na detenção por períodos curtos, 24 horas, por exemplo. Não creio que um homicida deixe de matar se a pena for de 25 anos e não de 20. Isso pode ser um consolo para a sociedade, que tenta satisfazer uma culpa ou iludir-se de que está fazendo algo. Sanção como vingança é ineficaz, não resolve. Jeremy Bentham (filósofo inglês, 1748-1832) dizia que há comportamentos indesejáveis que a sociedade não pode penalizar, pois as regras serão burladas. O adultério é um exemplo. É melhor, como sugere Bentham, deixar esses assuntos para os sacerdotes.

ISTOÉ – Diante do fracasso da repressão às drogas no continente, que soluções deveriam ser tentadas?
Mockus –
Precisamos desenvolver o controle social, promover uma rejeição social às drogas, como fazemos com o cigarro e o uso excessivo do carro. A todo momento a sociedade obriga o fumante a pensar que está se intoxicando, quase o estigmatiza. A rejeição às drogas tem sido muito caricatural, sem promover processos reais de pressão de indivíduos reais sobre indivíduos reais. Em Bogotá, o desperdício de água parecia um problema insolúvel, mas combinamos repressão com educação e 3% da população, 63 mil famílias, resolveram pagar impostos voluntários pela água. Se você dá publicidade ao exemplo, ele vira um instrumento forte.

ISTOÉ – Quem transgride sempre justifica...
Mockus –
É preciso também atacar as justificativas que as pessoas usam para as ilegalidades que cometem. No caso da droga, é muito visível. Muitos dizem que vendem drogas para ajudar a família. Atacamos fortemente esse sistema de justificações, com comerciais na tevê dizendo “vá enganar outro”. Tenho sido consultado por metrópoles interessadas em desenvolver a cultura cidadã, como São Paulo, Belo Horizonte e Cidade do México. Começamos pesquisando as justificações para comportamentos ilegais.

"Precisamos promover uma rejeição social às drogas, como fazemos com o cigarro e o uso excessivo de carros”
KEVIN FRAYER/AP/IMAGEPLUS

ISTOÉ – Algum comportamento nas cidades brasileiras chamou sua atenção?
Mockus –
O denominador comum é a equivalência do direito à vida ao direito à propriedade: matar para roubar ou para não ser roubado. Também me chamam a atenção as experiências locais de políticas de segurança. Diadema foi bem sucedida ao adotar parte das medidas de Bogotá, como o fechamento dos bares depois da 1h nos bairros com mais crimes e acidentes de trânsito.

ISTOÉ – Qual foi a mudança mais fundamental em Bogotá?
Mockus –
Foi a implantação de uma cultura cidadã, a exigência de mais respeito às leis por interiorização das regras. Com a mudança comportamental, a remontagem do espaço público ajudou muito. Quase não houve aumento do efetivo policial. Acabamos com 2,3 mil agentes de trânsito municipais e passamos suas tarefas para a Polícia Nacional. Eu defendi a qualificação dos policiais, em vez de elevar seu número.

ISTOÉ – Como produzir uma mudança de mentalidade?
Mockus –
Investindo mais em artes e espetáculos, nos exemplos de tolerância, nos festivais de teatro. Um dos quatro itens do programa de cultura cidadã é aumentar a capacidade de interpretação e expressão, via arte, recreação e esporte. Os outros três são: aumentar o respeito voluntário às normas, ampliar a quantidade de pessoas capazes de pressionar quem não cumpre as normas e multiplicar a solução pacífica de conflitos. Imagine um carro que entra na contramão e quase bate em outro. Eles conseguem evitar a batida e param lado a lado. O que está na mão certa abaixa o vidro e diz: “Assim não vamos ter a cidade que queremos.” Espera-se que o outro reaja violentamente, mas ele abaixa a cabeça e concorda. Em Bogotá, liquidamos a polícia de trânsito e os policiais nacionais foram qualificados como formadores de cidadania.


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14/5/2008


 
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