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O colégio interno não é mais aquele
O ambiente continua disciplinador. Mas nem de longe lembra a rigidez de décadas atrás, quando os internatos eram o pesadelo dos estudantes

AZIZ FILHO E JONAS FURTADO

Na contramão do processo de extinção dos colégios internos, a igreja adventista expande seus institutos e universidades pelo País. Presentes em todos os Estados do Sul e Sudeste brasileiro, eles têm, entre outras, uma unidade em Taquara (RS), inauguraram neste ano uma em Joinville (SC) e em 2009 chegam a Belém (PA). “Sabemos que os internatos estão fora de moda, e eles nem são viáveis como negócio. Investimos no modelo porque acreditamos na filosofia”, afirma o diretor-geral de Engenheiro Coelho, José Paulo Martini. A igreja subsidia seus 18 internatos no Brasil. A mensalidade- base dos alunos externos dos colégios da instituição não chega a R$ 400 – no internato, é de aproximadamente R$ 1 mil.

Apesar de a mensalidade também ser de cerca de R$ 1 mil para os internos, o ambiente é mais modesto no Instituto São Pedro de Alcântara, também em Petrópolis e a única opção ao Adventista no Estado do Rio. O prédio com as salas de aula, o alojamento e um pequeno pátio – onde a única atração é uma disputada mesa de pingue-pongue – ficam espremidos em um terreno em aclive de 700 metros quadrados. É uma escola leiga e mista, com 300 alunos, e o internato é só masculino, com 70 vagas. Os portões ficam abertos, mas ninguém sai, até porque geralmente não há para onde ir.

Em comum, os colégios internos remanescentes mantêm uma rotina britânica de horários. No Ipae, ao toque de recolher das 22h, as luzes são desligadas e os alunos despertam às 6h com uma sirene. Para as meninas da Unasp, uma boa amizade com as “prepas” (como são chamadas as monitoras responsáveis pela fiscalização e o suporte pessoal aos alunos) é a chave para garantir algumas regalias marginais ao regulamento, como momentos a mais de luz durante o black-out noturno.

HORA DOS ESTUDOS Alunos do Instituto Adventista Cruzeiro do Sul, em Taquara (RS), usam a biblioteca para complementar as atividades de classe

As “prepas” também formam a barreira a ser superada às portas dos dormitórios após o pôr-do-sol todas às sexta- feiras, quando acontece o culto religioso para os internos. Elas avaliam as roupas escolhidas pelas meninas para que não haja exageros (como saias acima do joelho). “É um desfile de moda. Tem garota que começa a se arrumar às quatro da tarde”, diz Camila Veríssimo, 17 anos, sobre a noite mais esperada da semana. A companheira de quarto, Larissa de Benedito, endossa a importância social do evento. “A gente se produz mesmo, porque ‘bomba’. Não pode dar na cara que está paquerando, mas sempre rola um olhar”, confessa.

Embora o regulamento do internato proíba o contato físico – não é permitido nem andar de mãos dadas –, há alguns artifícios para burlar a vigilância. “Quem quer fazer algo mais vai para a mercearia”, diz Mateus Benvenutti, 15 anos. Ele se refere à loja de conveniência instalada logo à entrada da Unasp.

Mesmo dentro do campus a rígida disciplina é atenuada, ao menos em datas específicas. Faz parte do calendário de alguns colégios adventistas a Festa dos Namorados, evento no qual os casais têm direito a ambiente com velas e alguns minutos de mãos dadas. Aluna do Ipae, a americana e filha de pastor adventista Lorraine Castro faz graça da disciplina rígida nos internatos. Para ela, a falta de contato físico “estimula a discussão da relação”. A companheira de quarto Lilian Loura concorda. “Em nenhum lugar os namorados têm tanto tempo para conversar como aqui”, diz, tendo ao fundo uma escrivaninha entulhada de livros, em que os dizeres de um quadro de madeira dá o clima reinante de amizade. “Bem-vindo ao nosso hospício: aqui somos loucos, uns pelos outros.”


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14/5/2008


 
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