As pessoas que acompanham de perto a organização dos leilões elogiam a atitude. “É uma demonstração de sabedoria”, diz o amigo Büel. “Sua família pode não ter o mesmo gosto pela arte e essa iniciativa diminui a possibilidade de atrito entre os netos, evita problemas que todos nós identificamos”. Responsável pelos leilões no Brasil, Soraia Cals concorda que dona Lily sabia exatamente o que estava fazendo. “Ela se mostrou muito determinada”, afirma. É preciso realmente estar muito segura para levar a leilão tantas preciosidades. Há peças da Companhia das Índias, mobílias do século XVIII e vários outros destaques. O vaso de flores de Portinari e um quadro de Antonio Bandeira estão avaliados em R$ 650 mil. Esses lotes serão leiloados no Rio, entre os dias 13 e 17 de maio. São 908 peças cujos valores somados alcançam R$ 10 milhões. Já a Sotheby’s vai leiloar os artigos de maior valor, tanto financeiro quanto sentimental. No dia 15, em Genebra, serão oferecidos 64 lotes de jóias. Dia 8, em Nova York, vai a leilão um quadro do pintor holandês Kees van Dongen. Somente essas peças estão avaliadas em cerca de R$ 15 milhões.
Dona Lily explicou a David Bennet, da Sotheby’s, a importância desses objetos. “Todas as minhas jóias me foram dadas pelos meus dois maridos. Fui casada com Horácio (de Carvalho) por 45 anos e, alguns anos depois que fiquei viúva, casei-me com Roberto. Então seu significado é o amor que sentiam por mim”, disse. A peça mais cara é o quadro em que Van Dongen pintou Lily, em 1946. Seu valor está estimado entre US$ 500 mil e US$ 700 mil. Ao avistá-la, em Paris, o artista pediu ao seu marido, Horácio, permissão para retratá-la. “Ele concordou com a condição de que depois pudesse comprar o retrato”, recorda. “Terminou em cinco dias e o chamou de Monique au chapeau, que se refere ao meu segundo nome, Lily Monique.” Os lances por essa pintura, considerada uma das melhores do pintor holandês, devem atingir valores estratosféricos.
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Paisagem
Fazenda Veneza, de Fachinetti, foi pintado em meados do século XIX R$ 160 mil |
Apesar de toda a movimentação em torno de seu acervo, Lily mantém a tranqüilidade que sempre foi sua marca. Afinal, está acostumada a grandes emoções. Filha de mãe francesa e pai inglês, nasceu em Colônia, na Alemanha. Foi criada na França, onde ganhou o concurso de Miss Paris em 1938. Ficou noiva do jornalista e empresário brasileiro Horácio de Carvalho aos 17 anos e mudouse para o Rio de Janeiro em 1939. Viveu 45 anos com Horácio. Seu segundo casamento, com Roberto Marinho, aconteceu em 1991. “A primeira vez que o vi, não me impressionou. Não era o meu tipo, com aquele bigodinho”, confessou ela recentemente. Depois, admite, apaixonou-se completamente. Após a morte de Marinho, em 2003, continuou vivendo na mansão localizada no bairro do Cosme Velho, zona sul do Rio. Os herdeiros da Globo dão a Lily o direito de viver lá o tempo que quiser. É para manter essa aparente tranqüilidade familiar que ela vai levar seu tesouro a leilão. “Não tenho mais tanto tempo de vida, então quero facilitar as coisas para meu filho”, explicou ela a alguns amigos.
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