
Em uma sociedade tão competitiva e assolada pelo stress, o acesso a momentos de lazer tornou-se tão essencial e desejável para os indivíduos quanto serviços básicos, como o transporte e a educação. Esta é a opinião do americano Christopher Edginton, secretário-geral da World Leisure Organization, órgão não-governamental que presta consultoria à Organização das Nações Unidas (ONU) em questões relativas ao lazer e ao desenvolvimento pessoal e social. “Qual é o propósito da vida? Para mim é encontrar felicidade, satisfação e conseguir apreciá- la, torná-la relevante. Isso pode ser alcançado pelo trabalho, mas também pelo lazer”, diz Edginton, 62 anos, que também é diretor e professor da Escola de Saúde, Educação Física e Serviços de Lazer da Universidade de Iowa (EUA). Ele esteve no Brasil como o principal nome do seminário Lazer em Debate, promovido recentemente pelo Senac e a Universidade de São Paulo.
ISTOÉ – Qual é a melhor definição para lazer?
Christopher Edginton – Há três maneiras clássicas para defini-lo. A primeira é que ele representa o tempo livre, no qual não se tem que trabalhar para garantir a subsistência. A segunda é que ele é a série de atividades em que um indivíduo está envolvido. Futebol pode ser uma atividade de lazer para uma criança, mas é um trabalho para jogadores profissionais. Mais recentemente surgiu uma nova definição considerando- o como um estado da mente – isso significa que ele pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Mas arrumar uma definição unânime sobre esse tema é mais difícil do que grudar uma gelatina numa árvore. Nos meios acadêmicos, nunca conseguimos entrar em acordo sobre isso. O que, de certa forma, é bom, porque o lazer é definido culturalmente. Não é certo que um americano defina o que é lazer no Brasil, mesmo em um mundo tão globalizado.
ISTOÉ – Em que época o culto ao lazer tornou-se importante?
Edginton – A estratificação do trabalho, sua organização social, criou uma espécie de dinâmica do lazer. As pessoas nas sociedades agrícolas tinham muito mais tempo do que nós. O tempo deles era regulado pelas estações e havia mais feriados, especialmente religiosos. Com a industrialização, os indivíduos passaram a ficar acorrentados a um esquema, a uma agenda, a uma máquina. Foram criados, então, o conceito de tempo de trabalho e tempo livre. O uso errado desse segundo se tornou um problema nos negócios e aí o governo começou a intervir. Basicamente, pelo menos nos Estados Unidos, os trabalhadores começaram a ir para tavernas, bebiam à noite e não conseguiam se apresentar para o trabalho no dia seguinte. Algo tinha que ser feito para tirar as pessoas dos bares. O lazer foi introduzido como um instrumento de controle social – e assim é utilizado em algumas sociedades até hoje.
ISTOÉ – Qual a relação dele com a saúde?
Edginton – As pessoas cada vez mais vêem o lazer ligado à saúde e ao bemestar físico e mental. Nas grandes sociedades, um dos maiores desafios enfrentados é a epidemia de obesidade que está por vir. Muito disso pode ser creditado à falta de atividades físicas durante o período de lazer das pessoas, associada a um hábito alimentar pouco nutritivo. E isso se torna um problema ainda mais sério quando começa a elevar os custos com saúde e assistência médica. Em 2006, ouvi de membros do governo chinês que, nos próximos 50 anos, um quarto da economia na China será focada em lazer e produção cultural. Nos Estados Unidos, em uma década, os gastos com lazer, serviços e bens aumentaram 1,3%, chegando a 8,3% da economia em 2004. Imagino a quanto esse percentual chegará em 50 anos.
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