A falta de transparência, contudo, é o maior motivo para manter tênue a linha que separa o que pode ser direito do que efetivamente é abuso com recursos públicos. No caso do reitor da UnB, por exemplo, consta a acusação de ter comprado um Honda Civic, de R$ 77 mil, numa cidade em que as autoridades circulam a bordo de Ômegas australianos. Também não pode ser desconsiderado que, embora tenha cometido um deslize de natureza ética, Mulholland exibe em seu currículo realizações importantes, como a criação de campi avançados nas cidadessatélites de Brasília, montados com base no Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
Criado no ano passado pelo governo federal, o Reuni prevê o aumento do número de vagas para o ingresso dos estudantes e da proporção de alunos por professor. Entre as metas do programa está a elevação de taxas de conclusão de cursos de graduação para 90%. A promessa do governo é de investir R$ 2 bilhões no setor entre 2008 e 2011. "Isso, ao longo dos anos, significará que as instituições terão um orçamento que, em alguns itens, quase dobrará", explica o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Ronaldo Mota. Apesar das boas intenções do governo, os estudantes, no ano passado, chegaram a invadir reitorias de universidades públicas em seis Estados sob o falacioso argumento de que o Reuni não prevê a contratação de professores nem a ampliação dos quadros técnicos e da estrutura física da universidade.
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TEMPOS PÓS-MODERNOS O reitor interino, Roberto Aguiar, ex-secretário de Segurança, e o estudante Fábio Félix, do PSOL: diálogo inimaginável na época da ditadura militar |
A defesa dessas bandeiras questionáveis tem origem na velha chaga da partidarização do movimento estudantil. Gloriosa no passado, a UNE, hoje, é uma geléia ideológica formada por várias legendas, como o PSOL, o PCdoB, o PSTU e o próprio PT. A gaúcha Lúcia Stumpf, atual presidente, é ligada ao PCdoB, que está à frente da entidade há 16 anos, mas corre o risco de perder a hegemonia. Na mobilização da UnB, havia quatro tendências disputando a liderança da invasão da reitoria: o PSTU, o PSOL, o PCdoB, e um grupo independente chamado Instinto Coletivo. "Com a democracia, o que nós temos hoje não é uma politização, mas uma partidarização do movimento estudantil. A massa estudantil não está interessada nisso. Nem eu, se fosse estudante, estaria interessado", critica Vladimir Palmeira, um dos mais carismáticos líderes estudantis da geração de 68.
O desinteresse a que se refere Palmeira pode ser medido por um recente levantamento do Ibase e do Instituto Pólis, realizado com oito mil jovens de 15 a 24 anos, das oito maiores regiões metropolitanas do País. Segundo a pesquisa, a maior parte dos estudantes tem como principal preocupação a falta de segurança e o desemprego, seguidas da qualidade da educação e da desigualdade social. A participação política é mínima: 75% nunca estiveram em uma associação estudantil e 96% nunca atuaram em ONGs. Vladimir Palmeira atribui a falta de engajamento exatamente à partidarização do movimento estudantil. "Talvez boa parte daqueles jovens de 68 não estivesse fazendo política hoje. O estudante que começa na política hoje só aspira a ser deputado ou assessor parlamentar", critica ele. Fábio Félix, um dos líderes da ocupação na UnB, é filiado ao PSOL e coordenou a campanha à Presidência da República da ex-senadora Heloísa Helena, em Brasília.
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| PRAGMATISMO Na sexta-feira 18, os estudantes deixam a reitoria da UnB, mas ainda falta uma nova agenda para o movimento |
O ex-ministro José Dirceu, outra das referências dos anos 60, diz que os tempos são outros: "Quando eu cheguei na universidade, dois terços eram públicas. Hoje é o contrário, mais de dois terços das universidades são privadas. Em cada etapa da história, o movimento estudantil tem um papel e uma forma de se manifestar. Não podemos dizer se esse é menos autêntico, se é menos radical."
Para manter a coerência com o pragmatismo e suas assembléias de resultados, os caras-lavadas da geração de 2008 do movimento estudantil não deveriam perder de vista a necessidade da gestão competente e a valorização do mérito na universidade. Mas uma parcela dos estudantes defende, por exemplo, a paridade de voto na escolha dos reitores, com o mesmo peso para professores, servidores e alunos. A experiência na própria UnB com a votação paritária foi funesta. Durante a gestão Antônio Ibañez (1989/93), por exemplo, a força política conquistada pelos servidores transformou o campus numa espécie de república sindical. Seguidas greves de servidores resultaram em roubos de equipamentos e computadores, ignorando o que realmente interessa na universidade: desenvolver conhecimentos e formar cérebros que resultem num país melhor.
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