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BRASIL
Os caras-lavadas
A novidade do movimento estudantil é a cobrança por transparência nas reitorias e melhorias nas universidades

Por SÉRGIO PARDELLAS

JOSÉ NASCIMENTO/FOLHA IMAGEM
ULYSSES FAGUNDES NETO Gastou dinheiro público na Nike e na Samsonite, foi pressionado pelos estudantes e devolveu o dinheiro, dizendo que não foi avisado das regras

Se antes miravam o futuro, agora os estudantes mobilizam-se por questões como a utilização correta dos recursos da universidade, a transparência nos gastos, a qualidade dos cursos, o crédito estudantil e o acesso ao ensino público. No caso das instituições particulares, o alvo é o preço das mensalidades. Recentemente, os estudantes também se uniram em torno da reivindicação do passe livre, que deu nome às passeatas que ganharam as ruas de Florianópolis. Liderado pelo bacharel em história Marcelo Pomar, o Movimento do Passe Livre assestou a mira no transporte coletivo e em suas vertentes: custo de vida, veículos eficientes, plano diretor e municipalização do serviço. Os estudantes enfrentaram a polícia no que foi batizado de "revolta das catracas". Depois de um mês de enfrentamento, os preços das passagens caíram. "Mexeu no bolso de todo cidadão, inclusive no do estudante de ensino médio, que não tinha dinheiro para ir à escola", comemorou Pomar.

Depois das vitórias, a pergunta que se faz é o que vem pela frente. Um dos desafios que se colocam para o novo movimento estudantil é o de hastear bandeiras que levem de fato à modernização das universidades. O foco não pode ser perdido, sob pena de retrocesso. O problema é que a postura pragmática da geração cara-lavada resulta, paradoxalmente, na desmobilização dos estudantes para outros assuntos que também interessam à sociedade. "Mobiliza muito mais o 'Fora, Renan' do que a discussão pela reforma política", reconhece o estudante de serviço social Fábio Félix, um dos coordenadores do DCE da UnB.

O mesmo raciocínio, contudo, deve garantir a preservação da Finatec, a fundação ligada à UnB que esteve na origem da queda de Mulholland. Ainda que parcela dos estudantes tenha pedido a extinção da Finatec, é esse instrumento que, na atual estrutura jurídica do setor público, melhor garante a ligação entre a universidade, as empresas privadas e a sociedade. As fundações das universidades públicas mostram-se de grande valia para a extensão acadêmica, facilitando a concessão de bolsas de estudo e financiamento de projetos. Até os hospitais universitários, que funcionam como base do sistema de saúde pública em muitos Estados, necessitam da estrutura dessas fundações para manter suas atividades.

"A massa estudantil não está interessada na partidarização do movimento"
Vladimir Palmeira, líder estudantil de 68

"As fundações são essenciais, por exemplo, para resolver problemas decorrentes da atual falta de autonomia das universidades", ressaltou o vice-presidente da Associação Nacional das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), José Ivanildo do Rego, em debate na Comissão de Educação do Senado. "As fundações não são ruins. Elas foram criadas na década de 1990 para prover recursos e dar agilidade na compra de materiais para pesquisas acadêmicas", faz coro o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), reitor da UnB entre 1985 e 1989.

TEIXEIRA/CPDOC JB
1968 A morte de Edson Luiz fez a classe média romper com a ditadura

Em 40 anos, uma trajetória errática

Tudo começou com um singelo protesto contra o aumento do preço das refeições no restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, naquele 28 de março de 1968. Truculenta, a tropa de choque da PM invadiu o local atirando e matou o estudante secundarista Edson Luiz de Lima Souto, 18 anos, que nem protestando estava. Revoltados, os estudantes carregaram seu corpo com a camisa ensangüentada até a sede da Assembléia Legislativa. No dia seguinte, milhares de pessoas acompanharam o féretro até o Cemitério São João Batista. O slogan da passeata marcou a virada de parte da classe média contra a ditadura militar, instalada em 1º de abril de 1964: "Morreu um estudante. Poderia ser seu filho."

Como um rastilho de pólvora, os estudantes tomaram as ruas e entraram em sintonia com o clima de rebelião que incendiava Paris e se espraiava por cidades européias, americanas e latino-americanas. Em junho, a UNE e a Ubes organizaram uma manifestação no Rio da qual também participaram intelectuais e artistas e que passaria à história como "Passeata dos Cem Mil". Depois disso, a repressão apertou o cerco e a radicalização estudantil aumentou. Em dezembro, veio o AI-5, e com ele o fechamento do Congresso, a censura, as prisões e a tortura. Parte dos estudantes caiu na clandestinidade da luta armada. As ruas foram trocadas pelos aparelhos e a identidade pelos codinomes. Ex-estudantes como Charles Chael Schreider, Honestino Guimarães e Alexandre Vanucchi Leme foram assassinados pela repressão.

O movimento estudantil brasileiro só voltaria à luz do dia em 1976-1977, principalmente em São Paulo, em meio à chamada "distensão política" da ditadura. Ele seria rapidamente superado pela eclosão das greves operárias no ABC. A UNE foi recriada em 1980, mas seria aparelhada por organizações da esquerda clandestina. Por vias transversas, os estudantes voltaram ao protagonismo em 1992, quando saíram às ruas para pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, primeiro mandatário eleito desde 1960, mas que estava sendo acusado de corrupção. Ficaram conhecidos como "caras-pintadas", por pintarem o rosto com o verde-eamarelo da bandeira. Sinal dos tempos: desta vez, os estudantes não foram influenciados pelas organizações, mas pela mídia e pela minissérie Anos rebeldes, sobre os eventos de 1968.

CLÁUDIO CAMARGO


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23/4/2008


 
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