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Arquivo vivo?
Extradição do ex-banqueiro Salvatore Cacciola traz temores de delação premiada

SÉRGIO PARDELLAS

PEDRO DIAS LEITE/FOLHA IMAGEM
DEPOIMENTO Salvatore Cacciola chega ao tribunal em Mônaco no processo de extradição

Depois de um processo judicial que se arrastava havia mais de sete meses, a Justiça de Mônaco anunciou, na quarta-feira 16, o parecer favorável à extradição do ex-banqueiro Salvatore Cacciola para o Brasil. A decisão ainda precisa ser homologada pelo chefe de Estado local, o príncipe Albert II, mas, desde que assumiu, ele jamais contrariou uma decisão do tribunal. A expectativa é de que o aval do príncipe seja dado em um prazo de 15 a 20 dias.

O governo brasileiro comemorou. “Agora é esperar a decisão do príncipe”, disse o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr. “Estamos muito perto de conseguir destronar o rei da impunidade”, afirmou. E fez pouco da possibilidade de mais um recurso da defesa – que seria um fato inédito em Mônaco. “É um direito deles, mas é também um reflexo do sentimento do cliente, que nunca respeitou a Justiça.” Os advogados de defesa de Cacciola prometem questionar no Tribunal Europeu de Direitos Humanos os mandados de prisão expedidos pela Justiça do Rio e que embasam a extradição. Se ele for extraditado, o Brasil passará a trabalhar pela recuperação de valores que Cacciola teria retirado irregularmente do País.

R$ 1,5 bilhão foi o prejuízo causado aos cofres públicos pela venda de dólares do BC ao Marka e FonteCindam

A volta de Cacciola provoca calafrios nos políticos por se tratar de um arquivo vivo que vez ou outra ameaça se abrir. Ex-dono do banco Marka, ele protagonizou um dos momentos mais críticos do governo de Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1999, quando houve a queda do real. Na época, sob a alegação de evitar uma quebradeira geral, o então presidente do Banco Central, Francisco Lopes, vendeu dólares mais barato aos bancos Marka e FonteCindam, causando um prejuízo de cerca de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos. Foragido da Justiça brasileira desde 2000, quando foi condenado a 13 anos de prisão por desvio de dinheiro público e gestão fraudulenta de instituição financeira, o ex-banqueiro foi detido em Roma em setembro de 2007 pela Interpol.

Desde então, conforme revelou ISTOÉ em novembro último, alguns políticos brasileiros têm recebido recados ameaçadores por meio de pessoas próximas ao ex-banqueiro. As chantagens de Cacciola têm como alvo principalmente políticos do PSDB. A esses, o ex-banqueibanqueiro avisou no ano passado que teria em seu poder documentos que comprovariam a existência de um esquema de venda de informações privilegiadas sobre juros e câmbio, pelo então presidente do BC, Francisco Lopes, e estaria disposto a envolver pessoas que ainda não foram citadas no escândalo.

A chantagem seria semelhante à que Cacciola supostamente fez na época da desvalorização do real para obter em 1999 o socorro ao Marka. Em seu retorno ao País, o ex-banqueiro poderia contar detalhes à Polícia Federal, em busca da delação premiada. Suas ameaças chegaram a ser motivo de pelo menos duas reuniões convocadas pelo ex-presidente Fernando Henrique entre os dias 17 e 30 de setembro de 2007. Os tucanos, no entanto, garantem que não estão preocupados com a extradição. Outro alvo das chantagens de Cacciola, no ano passado, foi o senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Na ocasião, o petista disse não ter nada a temer.


23/4/2008


 
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